Roger Waters em Porto Alegre: um espetáculo sensorial

novembro 3rd, 20180 Comments »Última Atualização: novembro 10, 2018

Cobertura independente – Direto do Estádio Beira-Rio (RS)

No último 30 de outubro, Roger Waters se despediu do Brasil com o show da turnê “Us + Them” em Porto Alegre. Foi a terceira vez que o eterno baixista do Pink Floyd se apresentou na cidade. Quem teve o privilégio de assisti-lo em 2002 e/ou em 2012, sabia que podia esperar um espetáculo completo. Os que o viram ao vivo pela primeira vez nesta semana, certamente se surpreenderam com todo o impacto de som, luz, efeitos sonoros e visuais que o show apresenta.

A noite iniciou com a abertura de Renato Borghetti. Como é garantido por lei municipal, os shows internacionais em Porto Alegre devem sempre iniciar com uma atração local. Geralmente, a banda selecionada passa pelo crivo do artista estrangeiro e costuma ter estilo semelhante ao da atração principal. Neste caso, foi até inusitado, porque Borghettinho faz música tradicionalista gaúcha. Segundo o músico disse em entrevista, a produção fez o convite em nome do próprio Roger Waters, que o escolheu para se apresentar. Como é um músico bastante conhecido do público, conseguiu animar quem aguardava por Waters.

Às 20h40, as luzes se apagaram e o imenso telão de 70m de largura e 14m de altura se acendeu. Durante 20 minutos, ficou rodando uma filmagem de uma mulher sentada de costas, praticamente imóvel, em uma praia. Às 21h em ponto, o céu azul claro do vídeo começou a envermelhecer, como no crepúsculo. Mas o vermelho foi dominando cada vez mais a tela, acompanhado por um som crescente de vento, que culminou em pulsação. Foi quando músico e banda entraram no palco tocando “Breathe”.

A maior parte do show foi dominada por músicas dos Pink Floyd, para alegria dos fãs saudosos, e dos mais jovens, que nunca teriam a chance de assistir à banda original ao vivo. Um presente do baixista, capaz de fazer uma apresentação tecnicamente impecável aos 75 anos de idade.

Ao longo de toda a apresentação, não só a música é protagonista. Como a introdução já demonstra, as canções dividem espaço com as imagens do telão, sincronizadamente. Efeitos sonoros, como de sirene, helicóptero e tiros, vêm de todos os lados. Luzes e lasers complementam. Isso tudo causa a sensação de imersão na música, perfeita para se curtir o estilo, um convite para uma viagem sensorial no progressivo e psicodélico.

Na banda, os solos de guitarra e vocais originalmente de David Gilmour ficam a cargo de Jonathan Wilson, que cumpre com maestria o papel. Também se destaca a dupla de backing vocals, que ataca, ainda, na percussão em algumas músicas. Com uma interessante presença de palco, por vezes teatral, um figurino e maquiagem com muito brilho, Jess Wolfe e Holly Laessig encantam especialmente na performance de “The Great Gig in The Sky”. É um dos momentos mais lindos vistos no telão, quando ele é dominado por uma imagem de Via Láctea, que se mistura ao rosto das duas enquanto cantam.

A emotiva “Wish Your Where Here” foi uma das canções em que o coro do público mais se evidenciou. E um dos momentos mais aguardado – se não, o mais aguardado -, foi ““Another Brick in the Wall Part 2” e “Another Brick in the Wall Part 3”. É, realmente, algo único ter a oportunidade de presenciar ao vivo um dos maiores hinos do rock, com direito ao coral das crianças e tudo. É de arrepiar. As 12 crianças do Ouviravida, projeto de educação musical de um bairro carente de Porto Alegre, subiram ao palco vestindo macacões laranjas, lembrando os dos presidiários americanos, e com capuzes pretos cobrindo o rosto. Uma imagem bastante impactante. Tiraram os capuzes quando chegou sua vez de cantar, enquanto faziam movimentos ensaiados com os braços. Em seguida, abriram os macacões e deixaram à mostra a camiseta por baixo com a palavra “Resist” (resistência), momento evidenciado no telão. Retiraram o macacão por completo e ficaram livres para, além de cantar, dançar uma coreografia acompanhada pelas backing vocals. Ao término da música, Waters fez questão de sorrir e agradecer a participação das crianças, dizendo “Bravo!”.

Não tem como falar de um show do Roger Waters sem destacar as questões políticas. Primeiro, porque as músicas e a performance são recheadas de manifestações declaradas. Segundo, porque o músico se tornou um personagem bastante atuante nestas eleições do Brasil, em razão de expor posicionamento contrário ao então candidato e, agora, futuro presidente eleito. Esta última apresentação no país foi a primeira após as eleições. Apesar do pleito ter passado, alguns fãs fizerem questão de demonstrar apoio ou oposição: alguns vestindo camisetas de Jair Bolsonaro, outros com adesivos do movimento #elenão; alguns abraçados em bandeiras do Brasil com a imagem do candidato eleito, outros envoltos em bandeiras do arco-íris.

Em alguns momentos do show, se ouviu gritos de “ele não”, que se intensificaram ao término de “Another Brick In The Wall”, quando o telão exibe a palavra “Resist”. Algumas vaias também surgiram, não chegando, contudo, a abafar o coro. É neste momento do show em que a banda faz um intervalo de 15 minutos e no telão começam a passar mensagens sobre tudo aquilo que Waters acredita que as pessoas devam resistir: fascismo, tortura, devastação do meio ambiente, machismo etc. Diferente dos shows anteriores, que contaram com a menção a Bolsonaro, no de Porto Alegre, isso não aconteceu, tendo o nome do político excluído, inclusive, da lista com governantes fascistas de diversos países, como havia aparecido em algumas outras apresentações.

No retorno do intervalo, quatro torres emergiram da terra no vídeo do telão. Ao chegaram ao limite dos 14m de altura, ultrapassaram a tela e surgiram reais, com um porco inflável entre duas delas. Eram quatro chaminés, dando ideia de uma fábrica em funcionamento e emitindo fumaça. No telão, surgiu uma edificação enorme, como se estivéssemos em frente de uma fábrica de verdade. Ou em frente à capa do disco “Animals” em tamanho gigante. Na sequência, vieram “Dog”, “Pigs” e “Money”, todas com diversas críticas a Donald Trump no telão, algumas vezes, em montagens satirizando o presidente dos Estados Unidos. Além disso, em “Pigs” também surgiu um segundo porco inflável, bem maior do que o outro, sobrevoando o público, com a frase “Stay human” de um lado, e a tradução “Seja humano”, do outro.

Em seguida, mais um momento super aguardado pelos fãs. Em “Brain Damage / Eclipse”, o prisma da capa de The Dark Side Of The Moon se forma sobre o público da pista premium. Novamente, a sensação de imersão, de estar dentro da música, de fazer parte da capa do disco gigantesca. Com uma chuva já caindo e aumentando aos poucos, o espetáculo se tornou ainda mais único pelo complemento dos clarões provocados por raios.

Com a ameaça de uma tempestade, Waters resolveu nem sair antes do bis, e cortando um pouco o setlist que vinha fazendo, pulou direto para “Comfortably Numb”, que encerrou com maestria sua passagem pelo Brasil.

Por: Lisiane de Assis (Colaboradora RR)
Edição: Diego Centurione
Fotos Roger Waters SP/Brasil: Camila Cara/T4F
(Colaboradora RR)

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