Paul McCartney retorna para mais uma catarse em Porto Alegre

outubro 15th, 20170 Comments »Última Atualização: outubro 26, 2017

Cobertura – Direto do Estádio Beira-Rio (RS)

Há quem diga que as novas gerações não conhecem Beatles. Que estes “velhos” tinham mais é que se aposentar. Que música virou negócio, tudo por dinheiro. Também há os que perguntem: “Você vai gastar tudo isso em um ingresso? Eu não pago”. “Vai ficar todo este tempo na fila enquanto ele está descansando no luxo do hotel? Não vale a pena”. Quem é fã de Paul McCartney, provavelmente, já ouviu tudo isso e um pouco mais.  E quem diz essas coisas, certamente, nunca chegou perto da sensação de catarse que é um show de Paul McCartney.

A chuva, que caía forte em Porto Alegre durante quase toda a semana, resolveu dar uma trégua na última sexta-feira 13, e apareceu poucas vezes, mais fraca. A noite iniciou com Frank Jorge, músico local que tocou acompanhado de Luciano Albo. O artista fez um show tímido, só com violões, e bastante curto, mas conseguiu envolver o público que começava a lotar o estádio Beira-Rio. Ele é uma importante figura do rock gaúcho dos anos 1980, foi um dos cabeças dos Cascaveletes e, depois, Graforréia Xilarmônica. Possivelmente, os fãs se sentiram contagiados por sua emoção em estar no mesmo palco que, em seguida, entraria um beatle, uma das suas principais referências. Frank encerrou sua apresentação com o clássico, que já se tornou praticamente um patrimônio do Rio Grande do Sul, “Amigo Punk”, e todos cantaram junto.

Passava um pouco das 21h, quando Sir. Paul McCartney retornou ao palco de Porto Alegre. Muito barulho antecedeu “A Hard Days Night”, música que tem representatividade especial para os fãs, pois é a primeira vez que entra no repertório de uma turnê desde os tempos dos Fab Four. “One On One”, nome da turnê que vem apresentando desde 2016, mescla canções da carreira solo, da época dos Wings e, na sua maioria, músicas dos Beatles. “Junior’s Farm” foi a segunda, logo após, veio a saudação: “Oi, Porto Alegre! Boa noite, Brasil!”. Avisou que tentaria falar um pouco em português, e deve ter se dedicado ainda mais às aulas, porque disse mais frases no nosso idioma do que em 2010. Em seguida também saiu um “Obrigado gaúchos e gaúchas”.

“My Valentine”, do álbum Kisses on the Botton, de 2012, apareceu ainda na primeira parte do show. Foi ilustrada pelo próprio clipe, que tem os belíssimos Natalie Portman e Johnny Depp, em um perfeito casamento de som e imagem. Paul, ao piano, a introduziu da seguinte forma: “Eu fiz esta música para minha querida esposa Nancy”. Depois veio “1985” e “Maybe I’m Amazed”, que ele anunciou como tendo sido feita para Linda, mas não mais a chamando de “minha gatinha”, como em 2010.

Em seguida, um novo telão desceu, dividindo e diminuindo o tamanho do palco. Assim, todos os músicos se posicionaram na parte da frente, inclusive o baterista, com uma bateria reduzida, o que criou um clima de show intimista em pleno estádio. Neste momento, Paul anunciou: “Agora, vamos voltar no tempo. Esta foi a primeira música que os Beatles gravaram”. Começou, então, “In Spite of all the Danger”, da época dos “Quarrymen”.

Pouco depois, em “Blackbird”, mais uma novidade, parte do palco subiu vários metros com nosso beatle em cima, possivelmente para que quem estava nos lugares mais afastados pudesse enxerga-lo melhor. Neste momento, disse: “Esta música é sobre Direitos Humanos. We need this, alright?”. O que atraiu um couro de “Fora Temer”. Ainda nas alturas, homenageou John Lennon com a emocionante “Here Today”. Tanto esta quanto “Something”, que entrou mais para o fim da primeira parte do show e homenageia George Harrison, tocam de maneira especial os fãs, pois fazem cair uma ficha de que eles realmente existiram, ele estava lá, e agora está bem na nossa frente, trazendo vida a tudo o que conhecemos apenas pelos discos, vídeos e fotos. A emoção aflora, transborda.

Sendo um artista atemporal e com criatividade incansável, as novidades sonoras também sempre aprecem. Entre elas, “For Five Seconds”, composta em parceria com Kanye West, em 2015, e cantada por ele e por Rihanna. Fotos de bastidores com os três apareceram no telão enquanto nosso Paul cantava a querida versão na sua voz.

Para homenagear os 50 anos do álbum Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band, “Mr. Kite” foi o momento mais psicodélico do show, com imagens ultra coloridas e muitos lasers por todos os lados. “Stg. Peppers Reprise” também apareceria no bis, mais tarde.

Voltando ao piano, uma trinca encerrou a primeira parte do show e marcou alguns dos pontos mais altos da noite: “Let it Be”, “Live and Let Die” e “Hey Jude”. A primeira delas encheu o público de emoção e luzes se espalharam com a ajuda dos celulares. Na segunda, a tradicional pirotecnia de chamas e fogos de artifício fizeram a adrenalina subir no ritmo dos gritos. E, por último, o momento mais bonito da apresentação contagiou a todos com uma energia única. Na hora do “Na, na, na”, um mar de balões coloriu cada cantinho do estádio. Merece os parabéns a Elo, uma das patrocinadoras deste verdadeiro espetáculo, que distribuiu os balões no início da apresentação. Quando a publicidade consegue criar experiências como esta, merece nosso reconhecimento. Foi aí que, assim como em 2010, mais expressões locais apareceram – porque quando se trata de Paul McCartney, não basta falar a língua nacional, tem que aprender as expressões regionais também. “Bah!” e “Tri legal” foram as da vez.

Na volta do bis, as bandeiras do Brasil e da Grã-Bretanha, que sempre aparecem nesta hora, ganharam o acréscimo da bandeira do arco-íris, que representa o movimento LGBT. “Yesterday” acalmou o coração e “Helter Skelter” fez questão de acelerar de novo. “Birthday” foi o momento escolhido para trazer fãs ao palco. Desta vez, quatro meninas trajadas com roupas alusivas ao figurino de “Sgt. Peppers” foram as escolhidas e dançaram a música inteira. Uma pena que, quando Paul perguntou de onde vinham e uma delas disse São Paulo, os mais barristas fizeram questão entoar uma vaia. Mas nosso querido britânico fez questão de cortar o clima na mesma hora, brincando (em inglês) “Você quis dizer, Porto Alegre”, e arrancando risadas do público. “Golden Slumbers” encerrou a apresentação e ele se despediu dizendo, como da última vez, “Até a próxima”, para a esperança dos fãs.

Respondendo a alguns apontamentos lá do início. No retorno do beatle a Porto Alegre, depois de sete anos, se viram muitos jovens de 18, 19, vinte e poucos anos. E até crianças que tinham as letras das músicas na ponta da língua. Estas, claro, por influência dos pais, mas bons exemplos devem começar na infância. E, por favor, quem é que com 75 anos tem toda esta energia e toca por 3h sem nem beber água? E, ainda, conduz tudo com muita tranquilidade, faz parecer fácil e dá a sensação de que passou em um piscar de olhos. Em vários momentos, também nos faz recordar das lembranças de filmes e vídeos de bastidores da década de 1960, mostra que continua o menino bem-humorado, nos fazendo rir com suas brincadeiras, dancinhas e reboladinhas.

Parece chover no molhado, mas ele não precisava de nada disso. Se ele só cumprisse tabela, com um show simples, de 1 hora e meia, sem interação, todos já amariam ver ele, já se dariam por satisfeitos pela oportunidade de ver um beatle. Mas não, ele retribui o carinho de todos, dando em dobro, em triplo. E será que ele realmente ainda está precisando de dinheiro? Obviamente tem negócio envolvido, afinal, é bom lembrar que tem gente que escolhe música como profissão. Mas tem muito, mas, muito amor envolvido. E é isso que faz toda a diferença em qualquer coisa na vida, inclusive, em um show de Paul McCartney.

Setlist do Paul McCartney em Porto Alegre 2017

Por: Lisiane de Assis (Colaboradora RR)
Edição: Diego Centurione
Foto: Marcos Hermes (Divulgação)
Setlist: T4F

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