Que a morte de Chester Bennington não seja em vão

julho 21st, 20170 Comments »Última Atualização: julho 22, 2017

Opinião: João Victor Vieira / Fotos: Camila Cara
Colaboradores Reduto do Rock

Edição: Diego Centurione

De quem é a culpa por nossos heróis estarem morrendo de tristeza?

Me lembro como se fosse ontem. Eu, com uns 12 anos, colocando pela primeira vez no CD player do rádio o meu mais recente xodó, Live in Texas, registro ao vivo do Linkin Park que se tornava minha primeira conexão com o rock internacional.

Havia meses que o disco tinha chegado nas prateleiras brasileiras e eu o ganhei de alguém que hoje já não lembro mais quem seja. Naquela ocasião, começo de 2004, já gostava da banda há uns 2 anos, desde o dia que assisti um clipe todo estranho de “Crawling” num dos programas noturnos da MTV.

Eu queria ter Mike Shinoda como meu favorito. Mas seu talento com as rimas estava muito além do ritmo vocal que eu possuía no início da minha pré-adolescência. Imagine então seu idioma.

Sobrou Chester Bennington. Eu conseguia imitar os gritos. De forma pífia, evidentemente. Mas não na minha cabeça. Ali eu era “O Chester”. Andando pra lá e pra cá no box do chuveiro como se estivesse no palco do Citi Field, em Nova York, diante de uma plateia que fugia ao alcance dos olhos.

Aí veio 2004. O show no Morumbi para mais de 80 mil pessoas era minha chance de conseguir imitar o meu então ídolo frente a frente. Mas o preço dos ingressos, minha idade e a falta de acompanhantes fez com que a única companhia que eu tivesse naquela noite fosse a do desejo de estar no único lugar em que queria estar, mas não podia.

A partir dali, minha relação com o grupo mudou. Continuei gostando, mas distante. Me irritava o fato de fãs como eu, da periferia, não terem acesso aos na época raros espetáculos que bandas gringas faziam por aqui.

Conheci o hip hop, rap, reggae. Dividi minha cabeça em camadas que acabaram com a polarização roqueira de anos anteriores.

A paciência com o Linkin Park durou até 2007. Já com 16 anos, comprei o Minutes to Midnight e até gostei do que ouvi, mas não era a mesma coisa. Sentia ali que a banda começava a curva para baixo na carreira e que aquele conjunto do qual fui tão fã não existia mais. Eles mudaram. Eu mudei. O mundo mudou. E lá fomos nós seguir caminhos separados.

Hoje, 10 anos depois, ouço que Chester Bennington se matou. “Pô, mas se matou?”, eu pergunto. “Mais um?”.

Mais do que o choque e a dificuldade em aceitar a morte de alguém que foi tão companheiro meu na fase mais confusa que uma pessoa pode passar, a adolescência, pairava na minha cabeça o questionamento: o que nós, fãs, estamos fazendo de errado?

Amy Winehouse, Chorão, Champignon, Chris Cornell, Chester e uma porrada de outros nomes, tirando a própria vida consciente ou inconscientemente sozinhos em quartos escuros, sacramentando um final melancólico para uma história de fama, sucesso e amor transmitido por milhões ao redor do mundo.

Chester tinha uma família. Esposa, seis filhos. Tinha amigos, dinheiro, reputação, companheiro. Eles erraram?

Não. Nós erramos.

Sugamos dessas pessoas tudo o que elas podem e não podem oferecer. Colocamos em cima delas a responsabilidade de uma vida. “Eu te amo mais do que a mim mesmo”, “Eu preciso te conhecer”, “Eu morreria se você não existisse”.

Despejamos em nossos ídolos o peso de problemas com os quais não sabemos muito bem como lidar e esquecemos que estamos falando de seres humanos, pessoas que passam pelas mesmas fases de instabilidade, felicidade, insegurança e provação que nós.

E pior: cuspimos o bagaço desses artistas quando eles seguem um curso diferente daquele que exigimos.

Criamos uma sociedade depressiva, carregada de uma necessidade de manter uma imagem que se encaixe no senso comum e ganhamos em troca uma ansiedade que nos impede de dormir por semanas. A culpa é nossa. Minha, sua, de todos nós.

Que a morte de Chester não seja em vão. E que paremos de matar nossos heróis de tristeza.

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