Opinião: Sinta mais e grave menos

março 7th, 20160 Comments »Última Atualização: março 7, 2016

Por: Murilo Pappini Couto (Colaborador RR)
Edição: Diego Centurione

Receber uma banda do gabarito dos Rolling Stones no Brasil sempre deixa marcas. Assim como deixaram Paul McCartney, David Gilmour, Foo Fighters, Queen + Adam Lambert e todos os outros gigantes do rock que passaram pelo solo nacional recentemente. O empenho deles em fazer a plateia ter a melhor experiência da vida é encantador.

A começar pela dupla de “Sir” que vieram para cá: Mick Jagger e Paul McCartney se destacam pela vontade de se comunicar com o público na língua local. Ambos, por várias vezes, se dirigiram ao público com palavras em português e fugiram do básico, fazendo muitas brincadeiras e usando gírias costumeiras de cada estado que passaram. Fora isso, subiram ao palco sem nenhum atraso – exceto em apresentações que tiveram forte chuva – o que mostra um respeito gigantesco pelos fãs. Não por acaso podem ser considerados os maiores artistas vivos hoje.

Mas uma coisa tem chamado a atenção, tanto de uma grande parte do público quanto de alguns músicos: as pessoas que frequentam os shows estão cada vez mais preocupadas em gravar trechos no celular, do que registrá-los em sua memória. Em entrevista para a Luciana Gimenez da Rede TV, Mick disse que os paulistas assistem às apresentações pelos seus celulares. Mas isso vem me chamando a atenção há algum tempo.

Um conhecido meu se aborreceu com uma pessoa que pediu para ele cantar mais baixo, porque queria que sua gravação registrasse melhor a voz de David Gilmour. Um outro amigo foi mais radical: prometeu que não vai mais a shows grandes, depois de receber o mesmo pedido na apresentação do Queen. O leitor pode estar pensando que foram casos isolados e que a maioria das pessoas quer ir mesmo para curtir. Sim, é verdade. Mas o número de “celu-espectadores” está crescendo bastante.

Veja bem, não tem nada demais em usar o celular para gravar um trecho do show. Eu mesmo fiz isso em todos que fui recentemente. É muito bom você ter em sua mão algo que o ajudará a recordar tão bem um momento especial. Mas o que assusta é que muitas pessoas preferem passar a apresentação com o celular na mão e se irritam ao serem “atrapalhadas”.

Vá ao show, grave uma, duas ou três músicas. Poste no seu Facebook, Instagram e mostre para todos os amigos. Mas não esqueça que nada jamais poderá registrar o espetáculo da mesma maneira que sua memória faz. Porque nada substitui a batida rápida que seu coração dá, quando vê Paul tocando “All my loving”, nem os pulos dos pés cansados ao som de “Jumping Jack Flash”, ou os pelos arrepiados ao ouvir e cantar alto “Love of my life”. Lembre-se que você está lá para ouvi-los tocar, e eles estão lá para ouvir a resposta do público. O show de rock é pra ser mais sentido do que gravado.

Foto: Camila Cara (Colaboradora RR)

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