Opinião: Meu amigo David Bowie

janeiro 12th, 20160 Comments »Última Atualização: abril 14, 2017

Por: João Victor Vieira (Colaborador Reduto do Rock)
Edição: Diego Centurione

Amigo,

Te escrevo pois soube que está de partida para sua terra natal. Não deve ser fácil partir após 69 anos vivendo entre nós, e digamos que você não foi nada discreto. Mas sempre chega a hora de voltar para casa, não é?

Não posso deixar de confessar que sua decisão me pegou de surpresa e, de certa forma, me entristeceu. No fundo, ainda conservava a esperança de vê-lo pessoalmente em ação. Não deu e eu entendo seus motivos.

Após tudo que vivemos, também seria impossível encerrar essa nossa convivência sem uma carta para lhe agradecer por nossa amizade, que, espero, continue, mesmo que estejamos agora em mundos diferentes. Se lembra de quando nos conhecemos? Eu, um garoto na altura dos 13 anos, que pouco entedia de música, lhe ouvi cantando com aquele vocalista bigodudo, narigudo e dentuço, um tanto espalhafatoso, no estilo e na voz, em um duelo impressionante de vozes sem igual. Me apaixonei de primeira.

Ficamos distantes logo após. Não por sua causa. Como jovem, me distanciei e fui atrás de outros estilos e amigos. Mas no momento mais importante da minha vida, você estava lá.

Nos reencontramos na minha primeira balada. Você cantava “Rebel Rebel” enquanto eu tentava experimentar um cigarro e um shot de tequila com a mesma rebeldia que você suspirava nos meus ouvidos. A noite acabou comigo passando mal, mas você seguiu ao meu lado.

Quando cresci, você resolveu que eu já era maduro o bastante para conhecer suas outras versões. Me mostrou um vasto acervo musical, com canções para qualquer momento da vida. Esteve comigo em “Win” nos momentos de tristeza, me mostrou “Young Americans” para as situações de euforia, “Fascination” para trilha sonora do encontro com amigos, “Let’s Dance” para uma festa na madrugada e “Life On Mars” para me ajudar a levar minha então namoradinha, e hoje quase mulher, para a casa que dividia com meus pais.

Você esteve em todas as situações. “Changes” quando fui morar sozinho, “Ashes to Ashes” quando curtia uma solidão… me ensinou a cultivar boas amizades, a ter autoconfiança, a ousar quando se sentir pronto para isso e valorizar a diversidade, sempre.

Por sua causa, e de alguns de seus colegas, aprendi que música era mais que uma obra de arte. Música é um sentimento, uma companhia, um ombro amigo que nunca te abandona e que sabe respeitar e se adaptar a qualquer uma das personalidades que o ouvinte venha a ter durante a vida. Quando você a deixa entrar, ela jamais desiste de te fazer sentir o que você quer sentir.

Por fim, gostaria de me despedir agradecendo, em meu nome e de tantos outros amigos que hoje te dizem “até logo, Camaleão”. Obrigado por ter trazido em sua mala um pouco de seu mundo para nos mostrar. Você nos fez melhor, nos deu um mundo melhor. Novas amizades virão, eu sei, mas você nunca perderá o seu lugar de direito, o lugar que você tanto fez por merecer. Espero que tenha uma boa viagem e que siga conquistando outros planetas com seu amor e talento.

De seu fã e amigo.

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