Iron Maiden fecha o Rock in Rio com grandeza épica

setembro 23rd, 20130 Comments »Última Atualização: setembro 30, 2015

Direto da Cidade do Rock (RJ)

Opinião de Vicente Seda
Texto cedido por ele e Jamari França ao Reduto do Rock
22/09/13

No último dia de Rock in Rio, deu a lógica. Iron Maiden (na foto) levou seus fieis seguidores ao delírio e encerrou o festival com propriedade, ao contrário do que acontecera em 2011 com o show de um Guns N’ Roses capenga. No segundo dia do metal na Cidade do Rock, Sepultura voltou a fazer bonito, Slayer mostrou se ressentir da ausência de medalhões, Avenged Sevenfold alternou entre peso e presepada, e o saldo geral foi bastante positivo. A apresentação da headliner inglesa foi o ponto alto da noite, com novidades no repertório pouco ou nunca tocadas no Brasil. Houve até espaço para Bruce Dickinson, ciente da transmissão ao vivo, aproveitar para encaixar uma propaganda da marca de cerveja do grupo.

Misturando o trânsito da saída da praia da Barra da Tijuca com o fluxo para o Rock in Rio o resultado foi a entrada quando o Halloween já se despedia do palco Sunset. A noite começaria mesmo com Kiara Rocks. Não chegou a ser ruim, cumpriu seu papel, esquentou o público, mas à base de covers e de uma flagrante apelação: convocar Paul Di’Anno. Sim, o vocalista original do Iron Maiden subiu emocionado ao palco Mundo no dia em que seu ex-grupo encerraria o festival. Tirando o contexto um pouco constrangedor, já que Di’Anno jamais voltou a figurar em grandes bandas e ainda espreme o sustento dos dias em que era a voz rouca da Donzela de Ferro, foi realmente esquisito ver um cover de “Wrathchild” com a voz original horas antes de Bruce Dickinson mostrar porque tomou o seu lugar. Di’Anno também cantou “Highway to Hell”, do AC/DC, e “Blitzkrieg Bop”, dos Ramones, e aproveitou para cavar uma participação na próxima edição do festival. Cavar, vale ressaltar, é eufemismo.

Agradeceu por estar ali e literalmente se ofereceu aos organizadores com aquele discurso meio “quem sabe um dia”.

- Eu disse uma coisa, que antes de morrer eu queria tocar no Rock in Rio. É incrível estar aqui. Quem sabe no próximo venho com a minha banda.

Se mostrou astúcia e teve sucesso no artifício para cativar o público, sem Di’Anno o Kiara Rocks foi mais uma banda de metal. O pessoal sabia tocar, do contrário não teria feito um bom cover de “Ace of Spades”, do Motorhead, na abertura do show, mas falta consistência para uma apresentação no palco principal de um festival desse porte. Ficou aquela sensação de que o Halloween, pelos relatos de amigos que assistiram, era a banda que deveria estar ali. Mais ou menos o mesmo que aconteceu com o Sepultura, que tocou no palco Sunset, em 2011, enquanto o inexpressivo Gloria era vaiado no tablado das estrelas do evento. Não bastasse a falta de um repertório de peso, o Kiara Rocks ainda teve de lutar contra falhas de som. Os falantes do lado esquerdo para quem estava de frente para o palco pareciam sofrer com a equalização.

Som, aliás, deve ser um ponto de estudo para a próxima edição do Rock in Rio. Pelo menos no palco Sunset. Ficou claro neste domingo que o atual sistema montado na arena não dá conta do público para alguns shows, como foi o caso de Sepultura com a participação de Zé Ramalho, neste domingo. A banda, que já havia se apresentado no palco principal na quinta-feira, quebrou tudo de novo no último dia de festival. E novamente atraiu uma legião de fãs. Mas muitos deles ficaram distantes do palco, por conta da quantidade de gente, e ouviram a pancadaria como se fosse música ambiente. Se a ideia é fazer do local de experimentos um palco cada vez mais popular, a estrutura precisa acompanhar. O “telão” também é de dar dó. Sem exagero, equivale à televisão da sala, ou até do quarto, de muita família de classe média por aí. Não foi surpresa ver algumas pessoas desistindo e caminhando para aguardar o início da apresentação do Slayer antes do fim das atividades no Sunset.

No palco secundário, Andreas Kisser e Derrick Green mais uma vez deitaram e rolaram. Não repetiram o setlist de quinta-feira, cuspiram petardos antigos como Innerself e aproveitaram para um cover presente no disco Chaos A.D. que, segundo Kisser, nunca fora tocado ao vivo pelo grupo. The Hunt, do New Model Army, sacudiu a plateia. A mistura com Zé Ramalho, no entanto, ficou meio água e óleo. Houve dificuldade para fundir os estilos e o resultado foi pouco além de músicas do cantor com guitarras bem distorcidas e os gritos ensurdecedores de Derrick, o que não impediu o público de berrar “Zépultura”. O vocalista do Sepultura chegou a assumir um par de surdos quando a banda levou, ainda sem Zé, Da Lama ao Caos, de Chico Science, cover que provavelmente teria ficado fantástico com o peso dos Tambours du Bronx. O encerramento com “ê, ô, ô, vida de gado” arrancou aplausos – e alguns risos.

Era então a vez do Slayer, embora desfigurado, mostrar sua força. Ficou devendo. Embora muitos dos presentes fossem fãs da banda, o show não empolgou. Os substitutos de Dave Lombardo, baterista demitido em fevereiro, e Jeff Hanneman, guitarrista morto em maio, mostraram competência, mas longe do carisma e da identidade sonora dos dois nomes certos na lista dos imortais do gênero. A banda também teve de lidar com problemas no som, mas o vocalista Tom Araya soube contornar os obstáculos interagindo com o público de forma inteligente. Coube homenagem a Hanneman em “Raining Blood”, com imagens do guitarrista em shows e em estúdio, além do encerramento com “Angel of Death” e seu nome estampado nos telões e no fundo do palco, numa adaptação da logomarca da cervejaria que patrocina o festival. Porradas como “Mandatory Suicide” também causaram rodinhas em profusão. Os veteranos foram bastante aplaudidos no fim, mas não causaram o impacto que se poderia esperar de uma banda com o histórico do Slayer.

Na sequência veio Avenged Sevenfold. Todos os que vi de camisa da banda na Cidade do Rock era bem jovens, mas quem precisa amadurecer é o grupo, que transita sem parar entre o metal e a “farofa”. Em certos momentos, você parecia estar em um show de rock pesadíssimo, em outros olhava-se para o palco para ter certeza que não era performance do Bon Jovi. O problema é que essas variações muitas vezes aconteciam dentro das próprias músicas, o que tornava o repertório uma espécie de colcha de retalhos. Isso quando, em vez de variar, misturavam tudo mesmo, colocando guitarras velozes e melosas para deixar Yngwie Malmsteen de cabelo em pé com levada de bateria de thrash metal. Não é daquelas bandas que imprime uma identidade no seu som. Parecem mais preocupados com as firulas. A conta é fácil: o Avenged Sevenfold tocou 12 músicas. Em 10 delas, como marcado no setlist divulgado, usou pirotecnia. Banal. O cenário era uma espécie portão do inferno, cuja parte superior ardia com labaredas sempre que possível e o final foi para deixar qualquer diva com inveja. Luzes rosas e amarelas, fogos de artifício, labaredas, tudo junto. E com pisca-pisca. Obviamente a essa altura a rapaziada do Iron Maiden já pedia que Bruce Dickinson apertasse o passo. A tortura durou pouco mais de uma hora.

Mas onde quer que você estivesse na Cidade do Rock, a Donzela iria te pegar, “no matter how far”. O Iron Maiden é o exemplo perfeito de como usar a presepada sem ser presepeiro. O primeiro ponto que impressionou foi a troca de palco. De cair o queixo. Mesmo com todo o cenário do Avenged Sevenfold, e a produção maior ainda do headliner do dia, os ingleses entraram no palco com somente cinco minutos de atraso em relação ao horário previsto. A pontualidade dos shows nesse Rock in Rio, salvo raras exceções como o Metallica, que atrasou meia-hora, também é digna de elogios. Desta vez, não deram chance para o som do palco Sunset se misturar com o do palco principal, golaço da organização.

A turnê atual da banda é ambientada no conceito de Seventh Son of a Seventh Son, do cenário aos bonecos do Eddie, o rostinho bonito de todas as capas de disco do Iron Maiden. E o show começou da mesma forma que o disco, com a pesadíssima “Moonchild”, faixa rara nos setlists antes dessa turnê. Foi o suficiente para o público se agitar. O Iron Maiden é daquelas bandas que ninguém reclama da repetição do repertório tocado nos shows. Os clássicos são praticamente hinos para os fãs, que cantam tudo. E o Iron Maiden, dessa vez, só tocou clássicos. As músicas mais recentes do setlist foram “Fear of the Dark” e “Afraid to Shoot Strangers”, ambas do início da década de 90. Os seis discos posteriores ao Fear of the Dark passaram em branco, completamente ignorados. Porém, seria interessante, já que o grupo não costuma passar muitos anos sem voltar ao Brasil, visitar faixas esquecidas da extensa lista de sucessos.

Porém, o Iron Maiden não parecia disposto a arriscar. O grupo ficou marcado pela sua apresentação no Rock in Rio de 1985, sendo considerada uma das melhores, talvez a melhor, performance do festival. E não quis colocar o título em jogo. O peso de Moonchild foi amaciado com a levada mais alegre de “Can I Play With Madness”, do mesmo álbum. Euforia total no gargarejo que, em vez de cantar, urrava o refrão. A energia e a presença de palco de Bruce Dickinson são louváveis. Difícil entender como aquele senhor corre de um lado para o outro o tempo todo e ainda sobra voz para colocar muito garotão no chinelo. A sequência do disco que pontua a turnê foi com “The Prisioner”, essa já com solo nervoso de Adrian Smith, variando entre suas Les Paul e Fender Stratocaster tradicionais, as mesmas que usava quando deixou a banda, justamente após o lançamento de Seventh Son of a Seventh Son. Em seguida, foi a vez de Dave Murray entregar seu primeiro solo padrão, com improviso, notas limpas e melodia intercalada com velocidade.

Os acordes distorcidos da introdução de “2 Minutes to Midnight” fizeram o Rock in Rio sair do chão. Veio o bordão “scream for me, Brazil”, mas nem precisava. Estava todo mundo berrando com os braços para cima de qualquer forma. Dickinson para e pergunta como foi a semana e avisa:
- O mundo está vendo o Rio na televisão. Então gritem Rio! Teremos todo tipo de coisa essa noite, labaredas e explosões. Vamos agora com duas que não tocamos no Brasil há tempos. É a nossa terceira vez no Rock in Rio. Na primeira eu sangrei e o meu produtor dizendo: “Será que pode sangrar mais um pouco? Fica ótimo na TV” – brincou o vocalista, lembrando o episódio em 85 quando se chocou com Dave Murray durante a execução de Revelations.

A balada que termina em pancada “Afraid to Shoot Strangers” veio como no CD. A precisão da banda, dos dedos de Steve Harris no baixo ao parque de diversões de Nicko McBrain, a precisão é assustadora. Entre os três guitarristas, Janick Gers sobra um pouco na turma, faz jogo de cena a maior parte do tempo girando os braços, sacudindo a guitarra ou a jogando para o alto. A sequência com “The Trooper” colocou em xeque as aspas de Dickinson de que entregaria duas não tocadas no país há anos. Como assim? A pérola do Piece of Mind de base veloz e vocal agressivo não sai nem por decreto dos setlists da Donzela. Dickinson tocou devidamente caracterizado de soldado com a bandeira inglesa em punho, nenhuma novidade.

E assim seguiu um cardápio farto de sucessos já tocados por aqui inúmeras vezes, mas que continuam terminando em delírio dos fãs. Caso de “The Number of the Beast”, executada com o tradicional bode macabro à espreita, e encerrada com gritos de “olê, olê, olê, Maiden, Maiden”. Os supersticiosos suspeitariam dos pingos de chuva que começaram a cair com mais força justamente no anúncio sombrio da canção. O carisma de Dickinson é tal qual sua voz. Ele pede, todos obedecem. “Phantom of the Opera” seguiu no ritmo das palmas. Não bastasse uma das bases mais frenéticas do repertório da Donzela de Ferro, Dickinson brada:

- Let’s burn the fucking place down (vamos incendiar a porra desse lugar)!

Nem precisava. Vieram “Run to the Hills”, “Wasted Years”, e a pérola “Seventh Son of a Seventh Son”, que no disco original tem quase 10 minutos de duração, com o primeiro boneco do Eddie surgindo no cenário. A faixa, não tocada nas muitas vezes em que o grupo esteve no Brasil, foi apoteótica. “The Clairvoyant”, “Fear of the Dark” e “Iron Maiden” fecharam a primeira parte do show, e o Eddie da capa do disco tema da turnê surgiu no fundo com direito a fogo nos miolos. Rolou uma debandada, pequena, talvez por conta da chuva, ainda leve. No retorno para o bis, o discurso do premier britânico Winston Churchill na Segunda Guerra Mundial anunciou “Aces High”, seguida de “The Evil that Men Do” e “Running Free”, em versão bem longa com Nicko segurando o ritmo na bateria para Dickinson apresentar a banda e fazer piada:

- Vou dizer uma coisa a vocês, a cerveja daqui é muito ruim, tive de trazer a minha – brincou, mostrando a cerveja lançada pelo grupo, Trooper.

Sim, Iron Maiden é mais do que uma banda, é uma franquia, um grande negócio. A chuva começou a cair forte logo que o show terminou. O grupo acabou premiado pelo profissionalismo e a pontualidade britânica, o oposto do que ocorreu no encerramento da última edição do Rock in Rio, quando Axl Rose e praticamente um Guns N’ Roses cover atrasaram bastante a entrada no palco, vendo metade do público sucumbir ao temporal e ir embora, com o restante tremendo de frio em meio a poças imundas. Desta vez, o festival foi fechado em grande estilo.

Fotos

Veja imagens oficiais do festival: clique aqui!

O álbum será atualizado!

Jam Sessions – O Blog do Jama: oglobo.globo.com/blogs/jamari
Edição Reduto do Rock: Diego Centurione
Foto: Wilton Junior/Estadão

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