Rock in Rio: Sepultura, Alice In Chains e Metallica instalam o rock no festival

setembro 20th, 20131 Comment »Última Atualização: outubro 14, 2013

Direto da Cidade do Rock (RJ)

Opinião de Vicente Seda
Texto cedido por ele e Jamari França ao Reduto do Rock
19/09/13 

O primeiro dia do metal no Rock in Rio teve de tudo. De zumbi a papa cadavérico. Mas se deu bem quem apostou no som. Sepultura, Alice In Chains e Metallica (na foto), sem firulas, foram os melhores da noite. A banda brasileira tocou acompanhada de um grupo de percussão francês e sacudiu a Cidade do Rock. O pessoal do grunge fez show consistente e curto, e o Metallica novamente mostrou que, ao vivo, é difícil de ser batido. Sebastian Bach, ex-Skid Row, e Ghost, foram as decepções. Sem confusões, também impressionou a organização do evento, corrigindo as falhas ocorridas em 2011.

Do terminal da Alvorada, na Barra da Tijuca, à Cidade do Rock, foram cerca de 40 minutos, contando a espera para entrar no ônibus. Ao chegar, já rolavam os agudos de Sebastian Bach, que parecia um pouco deslocado naquele cenário. Chegou a fazer um pessoal pular com “Monkey Business” e meninas gritarem com “18 and Life” e “I remember you”, mas ficou evidente que não se sustentaria em um palco maior. Era tanto reverb que ficou difícil saber de fato o atual estado do gogó do sujeito, que pareceu castigado pelo tempo. Inevitável uma comparação com Axl Rose, que encerrou o Rock in Rio dois anos atrás. Encerrado o momento “farofa” – com o povo jogando bolinhas infláveis coloridas para o alto no gargarejo do Sunset, para ilustrar a cena -, as atenções se voltaram para o palco principal. E lá, ao contrário do ex-Skid Row, o Sepultura esclareceu porque, em 2011, boa parte dos que assistiram seu show no palco secundário se perguntaram porque aquilo não aconteceu na arena central, na ocasião povoada por porcarias como Gloria.

Em fina sintonia com o Tambours du Bronx, Andreas Kisser comandou a pancadaria que, se teve um defeito, foi o excesso de interrupções, que esfriou um pouco o público em certos momentos. A equalização no início do show também não esteve perfeita – foi corrigida lá pela terceira música – e teve auto-falante reclamando dos graves exagerados em Refuse Resist, que tornaram o som um pouco embolado, abafando os agudos. Nada que tirasse o brilho da apresentação. No palco, a banda foi irrepreensível. Repetiu a maior parte do que tocou em 2011, mas dessa vez com a potência sonora multiplicada, e o resultado foi o conhecido peso dos cabeludos reforçado por uma infantaria de tambores metálicos amplificado por um sistema de som dos mais parrudos.

Houve até espaço para um momento protesto, quando Kisser, antes de iniciar Sepulnation, pediu que todos levantassem os braço direito com o punho cerrado e gritasse: “Muda Brasil!”. O impacto da apresentação dos brasileiros foi tal que o bizarrão Rob Zombie precisou de mais do que a maquiagem macabra dos integrantes da banda – ótima, por sinal – para manter a pressão. Casca-grossa do gênero, Zombie mandou ver sem dó e colocou o povo para balançar cabeça, em clima bem diferente da performance de Bach. Com voz de sobra e peso nas guitarras, os zumbis foram bastantes aplaudidos.

Encerrada a programação do Sunset, nova “procissão” para o palco principal. Um papa macabro conduzia os fiéis a uma viagem por cantorias em latim e sons de igreja misturados a muita distorção. Mas não agradou. Boa parte do público não entrou nem um pouco no ambiente que o Ghost pretendia criar. Com a qualidade da apresentação dos mascarados da última edição – o Slipknot – o teatrinho do Ghost esteve mais para Gasparzinho do que para Poltergeist. Prova disso foi a rejeição do público em resposta a James Hetfield, do Metallica, que disse ter visto o show e perguntou se a plateia gostou, ouvindo um sonoro “não”.

Era então a vez do Alice In Chains. Mesmo com toda a consistência de Jerry Cantrell na guitarra e vocal, e da competência do novo vocalista para levar tanto o trabalho novo quanto os sucessos antigos, alguém apertou demais as correntes da Alice. Terminado o show, de exatamente uma hora de duração, ouvi um sem número de comentários do tipo: “Só isso? Já acabou?”. De fato, um show tão curto para a banda na posição de segunda mais importante do dia na programação foi decepcionante. Só não dá para reclamar do que foi visto nesses sessenta minutos. É notório que o grupo ainda vive dos seus antigos sucessos – somente três músicas saíram dos discos recentes. Euforia mesmo só em “Man in the Box” e “Would”. Mas é uma banda de encher os olhos.

William DuVall não tem a mesma potência de Layne Staley, mas segura a peteca com categoria. Usa de forma eficiente o timbre parecido com a voz original do grupo. Ele não mostrou muita empatia com a plateia, mas circula entre papel de protagonista e coadjuvante, ficando visível que a liderança da turma é de Cantrell. Todos os integrantes são muito competentes, o som é consistente e tem identidade. Por isso a revolta de muitos com a duração do espetáculo.

O Metallica deveria entrar no palco às 00h05, mas o fez meia-hora depois. Algumas vaias foram ouvidas até que a tradicional trilha de Enio Morricone anunciasse o início do show. Prova de foto para Hetfield, Kirk Hammet, Lars Ulrich e Robert Trujillo. O grupo tocara no festival dois anos antes e, para muitos, foi o melhor de toda a programação. Justamente por isso, surgiu outro convite para o retorno em 2013, a terceira apresentação do Metallica no Brasil em quatro anos. Como não soar repetitivo? O mais óbvio, mudanças no setlist.

O encerramento, por exemplo, não mudou de 2011 para cá e o público mais uma vez caiu, ou fingiu cair, na ceninha de Hetfield para ver os fãs implorarem por “Seek and Destroy”. Mas as alterações foram sensíveis e estruturais. Das faixas executadas há dois anos, “Fuel”, “Ride the lightning”, “Orion”, “Fade to black”, “Cyanide”, “All nightmare long”, “Am I evil?” e “Whiplash” ficaram fora. Entraram “Hit the lights”, “Holier than you”, “Harvester of Sorrow”, “Wherever I May Roam”, “The Day That Never Comes”, “And Justice For All…”, “Memory Remains” e “Battery”. Ou seja, substituição de oito músicas de 18, quase metade do setlist foi trocado. Portanto, não dá para dizer que foi o mesmo show. Não foi. E, para o Metallica, este foi ainda melhor. Pelo menos foi o que disse Lars Ulrich.

A abertura, contudo, não se encaixa nessa afirmação. Menos conhecida, “Hit the lights”, primeira música do disco de estreia do Metallica, Kill ‘em All, passou longe de causar efeito similar aos primeiros acordes da nervosa “Creeping Death”, que desta vez ficou para o bis. Na sequência, sem pausa, “Master of Puppets” na íntegra corrigiu a distorção com sobras. Hetfield assumiu a função de comunicador com a mesma competência que mostrou dois anos atrás. Não exagerou nas brincadeiras, fez até mímica e chegou a pagar pela língua. Tentou ser simpático, disse ter assistido ao show do Ghost, e fez a besteira de perguntar para a multidão. Mas nem a sinceridade da massa o deixou sem graça.

- Ainda estão aqui? Se divertiram hoje? Eu vi Ghost, gostaram (a maior parte do público respondeu “não“)? Ah, não! Pobre Ghost! Ficaram com medo? É só uma máscara. Vi também o Alice In Chains, gostaram (desta vez a resposta foi positiva)? Aí veio o Metallica estragar tudo. Somos barulhentos demais e agressivos demais. “Sad But True!” – anunciou Hetfield, para delírio do mar de gente, que pareceu de fato emocionado por estar ali e não parou de elogiar o público. – Vou ao trabalho e vejo isso, vocês. Isso não é trabalho.

Não houve cenário, somente a estrutura de palco idêntica à usada em 2011, com rampas, um andar superior e a bateria de Ulrich na parte da frente do palco. O fundo se tornou um telão gigante, reproduzindo as mesmas imagens das telas nas laterais. Nos solos, mais brincadeiras. Hammet entoou o tema de Star Wars, enquanto Trujillo se divertiu desafinando as cordas do baixo, como já fizera em 2011. Hammet até procurou não seguir à risca os solos originais, alterou vários deles, mas tem sido repetitivo. Aposta demais na velocidade e acaba soando pobre em alguns momentos. Ulrich se mostrou mais concentrado do que há dois anos, quando escorregou no pedal duplo do bumbo na parte raivosa de “One” – outra parte do show idêntica à última apresentação, da pirotecnia aos efeitos sonoros. Um ponto ruim do show foi a introdução da clássica “And Justice for All…”. Inexplicavelmente, o dedilhado inicial veio em forma de playback. A banda entrou quando começou a distorção nas cordas. Pouca gente pareceu se dar conta.

Antes do encerramento com “Seek and Destroy”, Hetfield brincou de mímica, fingindo que devolveria a guitarra sem tocar o sucesso do primeiro álbum da banda. Fez discurso para anunciar a faixa pedida de forma quase unânime.

- Estamos aí há 32 anos e somos headliners do Rock in Rio. Isso é lindo! Essa é dedicada a vocês, amantes da música e da música pesada, a família Metallica. Podem iluminar o público? Querem mais? Vocês tem o Kill`em All? Seek and Destroy!

No fim, o grupo se rendeu ao delírio incondicional dos fãs. Todos os integrantes ficaram no palco por vários minutos, enrolaram o que puderam, pareciam não querer sair dali. Todos também foram ao microfone se despedir. Kirk e Trujillo arremessavam palhetas e outros objetos de recordação, Ulrich fazia o mesmo com baquetas, além de cuspir isotônico, e Hetfield perambulava por todos os cantos do tablado agradecendo à multidão. O baterista cravou que o show desta quinta-feira barrou o de 2011. E Hetfield fechou a noite:

- Rio, você arrebenta! Muito respeito do Metallica!

Fotos

Veja imagens oficiais do festival: clique aqui!

Jam Sessions – O Blog do Jama: oglobo.globo.com/blogs/jamari
Edição Reduto do Rock: Diego Centurione
Foto: Divulgação – Oficial

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1 Comment

  1. Michele Miranda disse:

    Pode crer, concordo com sua resenha quase que integralmente. Rolou um playbackizinho no Metallica mas só por 1 segundo foi quase impercepítivel, rápido, porém estranho e assim passou batido. Pensei ter sido imaginação minha. Mas olha amigo, eu não me cansaria das (poucas) inovações da apresentação dos caras não pois a qualidade é sempre lá em cima e fica aquela vontade enorme de ouvir tudo de novo, e de forma nostálgica, num tempo muito breve.