Tony Bellotto fala sobre tragédia de Santa Maria e situação das casas de espetáculos no Brasil

fevereiro 1st, 20130 Comments »Última Atualização: fevereiro 1, 2013

O escritor, compositor e guitarrista do Titãs, Tony Bellotto, comentou sobre a tragédia de Santa Maria (RS) e a situação precária das casas de espetáculos no Brasil. O texto, intitulado “O beijo da morte”, foi publicado nesta sexta-feira (1º), no blog da editora Companhia das Letras. Leia abaixo.

“Não há como escapar desse horrendo incêndio da boate Kiss, em Santa Maria, e isso me faz pensar numa coisa terrível: não sei como tragédias como essa não ocorrem com mais frequência no Brasil.

Em trinta anos de carreira com os Titãs, constatei (e continuo constatando) como o nosso show business é um negócio improvisado e fuleiro, administrado em grande parte por bandos de aventureiros sem caráter.

Já vi e vivi de tudo nessas três décadas, e é espantoso que tão pouco tenha mudado em tantos anos.

Até hoje é comum que bandas e artistas de ponta façam shows em casas de espetáculo que só têm uma entrada (como era o caso da Kiss).

Nesses lugares, quando você chega para fazer o show, entra pela porta da frente e vai abrindo caminho pelo público até chegar ao palco.

Além do constrangimento que isso gera, sem contar a exposição a que o artista fica sujeito, que se manifesta desde um inoportuno pedido para tirar uma foto até o xingamento de um ou outro bêbado mais exaltado, existe sempre um risco real de tumulto ou deflagração de alguma situação que escape do controle (aliás, controle de quem? Tem alguém no controle?).

Isso sem contar a incompetência dos ditos “seguranças” desses lugares.

Não é espantoso que os seguranças da Kiss tenham impedido a saída dos presentes durante o incêndio porque não tinham pagado a conta?

Se você tem alguma familiaridade com os seguranças dessas casas não vai achar tal comportamento tão “espantoso”, infelizmente. Lembro de um show que fizemos num ginásio em Campinas, há alguns anos, quando um segurança matou a tiros um garoto que não tinha conseguido ingresso e tentava entrar no ginásio por um vão da parede externa.

Outro dia mesmo, chegamos a uma dessas casas e fomos recebidos a vaias. O dono da casa, que nos contratara para tocar à meia-noite, avisara seu público que o show teria início às 21h, assim ele poderia faturar três horas de bebida impaciente no bar.

Sei que tudo isso é pouco perto do que aconteceu em Santa Maria, e sei também que em muitos desses casos, nós, artistas — e nossos empresários — também temos culpa por toparmos trabalhar em condições tão nebulosas.

Que essa tragédia sirva para mudar o estado das coisas.”

Tony Bellotto

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