King Animal, do Soundgarden: o animal que hibernou por tempo demais

novembro 13th, 20120 Comments »Última Atualização: novembro 13, 2012

Voltas. O mundo dá voltas. Há várias delas na vida. Mas, de todas, poucas são tão difíceis de assimilação quanto as voltas de bandas de rock. Principalmente quando a banda foi uma das mais jovens a “encerrar” a carreira, no topo da cadeia criativa do rock mundial, com milhões de álbuns lançados e “às voltas” com o estrelato, o auto-ostracismo e, por fim, o suicídio musical/comercial típico das bandas grunge – onde algumas bandas levaram o último termo ainda mais a sério.

Este é o Soundgarden. E, ao anunciar sua volta, em 1º de janeiro de 2010, viu fãs celebrarem por um bom tempo um sonho que, nos 12 anos anteriores, foi enterrado a cada álbum novo do Pearl Jam com Matt Cameron nas baquetas, a cada disco novo do Audioslave ou solo de Chris Cornell (incluindo um trabalho equivocado, pra dizer o mínimo, com Timbaland) e cada afirmação de “não, não vamos voltar”. Por tudo isso, a surpresa e a celebração cessaram por um momento, e geraram dúvidas. O que pode vir de uma banda que sempre foi uma incógnita dentro do rock? Teriam seus integrantes a mesma força de composição e a mesma carga de inspiração e criatividade do passado? Seriam todas as experiências intermediárias fatores positivos ou negativos na concepção de novas músicas?

King Animal, o disco que é lançado oficialmente nesta terça-feira (13) – quase 3 anos após a volta, que teve shows gigantescos e lançamentos das faixas inéditas “Black Rain” (recuperada das sessões de gravação do álbum Badmotorfinger) e “Live To Rise” (composta para a trilha sonora de The Avengers) -  responde a essas perguntas como o bom e velho Soundgarden responderia: não claramente, não totalmente, mas com pistas sutis – e talvez propositalmente contraditórias – ao longo de suas 13 faixas.

Como todo e qualquer disco da banda é complexo demais para ser resumido enquanto unidade – o que, no caso do Soundgarden, SEMPRE foi uma virtude – resolvemos fazer um faixa-a-faixa de King Animal, que não foge à risca:

1 – Been Away Too Long: “Seguindo reto. Eu sempre quis apenas um intervalo. Eu estive longe por tempo demais. Apesar de nunca querer ter ficado, de fato”. A mensagem é curta e grossa, e entregá-la da forma mais crua possível parece ser o papel da música. A simplicidade quase radiofônica, no entanto, faz ouvidos acostumados ao Soundgarden estranharem e acharem que algo está faltando, mesmo que ela lembre em partes a força de “My Wave” do Superunknown (para alguns, obra-prima da banda). De qualquer forma, a escolha dela para primeiro single do álbum não foi à toa.

2 – Non-State Actor: Faixa poderosa e já com o peso mais cadenciado característico da banda, que nos faz pensar, finalmente, que este é o passo seguinte ao Down On The Upside (último disco de estúdio antes da pausa/volta). A ponto de pensar, até, que ela poderia tanto ser uma música nova do Soundgarden quanto do Audioslave, inclusive pela letra mais política.

3 – By Crooked Steps: Mais uma faixa rápida, trazendo de volta todo o clima de livre composição de Down On The Upside. Os riffs de baixo + guitarra e a pegada da bateria são as de sempre, mas os vocais de Cornell trazem algo novo, direto da bagagem do tempo longe de sua primeira grande banda.

4 – A Thousand Days Before: Baião??? Matt Cameron altamente influenciado pelas passagens pelo Brasil com o Pearl Jam? Sempre conhecido pela inovação nas baterias, ele inclui esse ritmo em um álbum do Soundgarden. E surpreende! Ainda assim, é a segunda música do disco que parece ter sido tirada de algum dos últimos álbuns do Pearl Jam. Mesmo os timbres característicos de guitarra de Kim Thayil não tiram essa impressão.

5 – Blood On The Valley Floor: Peso. Riffs. Letra e vocais mais soturnos e marcantes. Tudo novo e tudo familiar de novo. A primeira música no álbum a dar a verdadeira cara de “eles voltaram” que todo bom fã esperava. E a velha-nova sensação de ouvir algo genial em pleno 2012.

6 – Bones Of Birds: Balada carregadíssima e forte, que nos remete a sons do Euphoria Morning (primeiro solo de Chris Cornell), e que consegue ser uma das baladas mais lindas que a banda já criou. Fala sobre paternidade e, curiosamente, traz um clima parecido com o de “Like Suicide” do Superunknown, que também fala sobre um pássaro.

7 – Taree: Composta pelo baixista Ben Shepherd antes da separação do grupo em 1997, é mais uma das músicas ressuscitadas de maneira primordial. A originalidade das melodias e os timbres ásperos de toda a banda – destaque para o magnífico vocal de Cornell – nos dão o clima exato da letra. Nos traz um pouco do clássico “Fell On Black Days” à cabeça.

8 – Attrition: Impossível não pensar no Binaural do Pearl Jam. Som mais rock and roll, bem diferente de tudo o que o Soundgarden fez, mas muito parecido com o que já foi feito por muita gente.

9 – Black Saturday: Outra faixa das mais surpreendentes e experimentais do disco. Começa com um violão despretensioso no começo da música, com uma levada meio Days Of The New/Temple Of The Dog, e cresce em um riff quebrado, e deságua em uma passagem totalmente psicodélica, e volta com um peso acústico que segue até o fim. Interessantíssima!

10 – Halfway There: Balada bem bonita e bem composta, mas peixe totalmente fora d’água no álbum. Típica música solo de Chris Cornell. Repito: ótima música, mas não pra um disco do Soundgarden.

11 – Worse Dreams: A essa altura do álbum, esse tipo de som já pode deixar de ser comparado a qualquer outra banda – ou à mesma que já comparei, pelas razões óbvias – e ser digerido como “o novo Soundgarden”. Refrão grudento, bases mais simples e a bateria que Matt se acostumou a tocar nos últimos 13 anos. Ruim? Nem de longe! Agradabilíssimo. Mas sem novidades. Apenas uma jam diferentona no final.

12 – Eyelid’s Mouth: o baixo nos puxa pra dentro da música, e todo o resto nos mantêm por lá. Uma sonoridade mais limpa e ao mesmo tempo “vintage” a la Led Zeppelin. Solos magistrais de Kim e mais vocais geniais de Cornell, mesmo no refrão, que quase torna a música mais pop.

13 – Rowing: Quase um mantra. O disco fecha de forma densa e hipnotizante. Parece sair do 10,000 Days do Tool. Alguns comentários no YouTube atestam, com propriedade: “When The Levee Breaks” (Led Zeppelin IV) do novo milênio.

Resumo da ópera: as reviravoltas e o tempo – tema muito presente na vasta maioria das letras – fizeram mais bem para os integrantes individualmente que para o grupo em si que, sinceramente, nem precisava de nada além de um passo além. Ainda assim, talvez ter demorado demais a acordar o animal-rei do período de hibernação tenha sido um pouco perigoso pra que a banda quase perdesse a sua identidade que é, exatamente, não ter identidade única. Por fim, isso torna King Animal um álbum difícil para o fã stoner buscando qualquer fase antiga da banda, ou quase impossível para conquistar fãs novos, mas disco perfeito para quem queria ouvir a banda em sua evolução natural. E o que torna o Soundgarden especial e o coloca na lista das bandas clássicas é, definitivamente, não temer o risco de lançar um álbum desses sabendo que no rock, na natureza ou na vida, não há voltas.

Ouça a íntegra de King Animal, clique aqui!

Por Rubens Loureiro, da banda Reversi
Música preferida do disco: “Taree”
Edição: Diego Centurione

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