Geração Sem Gás: a música entre a sede por ideais e a propaganda de refrigerantes

outubro 18th, 20122 Comments »Última Atualização: outubro 23, 2012

Colunista: Rubens Loureiro, da banda Reversi (twitter e facebook)
Edição: Diego Centurione

Estamos prestes a votar no segundo turno em São Paulo. Em algumas cidades, os representantes já foram escolhidos para os próximos quatro anos. As mídias sociais desempenharam – ao menos na prática – um papel importante para que se conhecesse de fato cada candidato, chegando até a abrir, ainda que não de forma ideal, alguns debates online. Assim como músicas, vídeos e literatura (por vezes falha) no geral, o que se viu foi um compartilhamento aberto e sem limites de idéias e informações.

A questão que abre esse texto, e que ficou mais latente na minha cabeça, foi: por que a música, especificamente, não tem sido determinante para protestar ou, ao menos, escancarar os pontos de vista, as vontades e as insatisfações de um povo ou, pelo menos, de uma geração?

Não vou tratar aqui da alienação política dos jovens de hoje, mesmo que essa seja uma das respostas para a minha dúvida. A questão aqui é entender, depois de tantas bandas com letras de protesto e músicas que bradavam contra a então situação do país ou do mundo, onde tudo isso se perdeu; onde toda a influência que uma banda exerce em outras mais novas deixa de cumprir o papel de, realmente, abrir a cabeça dos jovens.

Bandas como Rage Against The Machine e System Of A Down foram, talvez, as maiores representantes das últimas bandas a pensarem o mundo de forma mais alternativa, gritarem – literalmente – contra isso e ganharem admiração e seguidores dentro do rock. Aqui no Brasil, salvo raríssimas exceções em músicas mais recentes, o protesto no rock vem de uma época ainda mais distante – a ponto da Pitty lançar, em seu Chiaroscuro, “Todos Estão Mudos”, que ao mesmo tempo em que escancara legitimamente a necessidade de fazer da arte também um instrumento de protesto, acabou se tornando uma metalinguagem do não-protesto. Bandas como Engenheiros do Hawaii, Titãs, Legião Urbana, Plebe Rude, Ira! e outras da mesma época são o grande grupo de artistas que se importavam em reclamar sem se importar com qualquer rótulo de “reclamões”.

Curiosamente, esse é o maior motivo que encontro entre as bandas novas para NÃO fazer “músicas de protesto”: o rótulo. Alguns criam o esteriótipo (tarefa preferida dos roqueiros brasileiros) de que “somente bandas punks protestam! É pra isso que elas estão aí!”, criando inclusive o argumento inverso de que “banda punk que não protesta é emo”, e por aí vai. Outros músicos com quem converso chegam a dizer, cheios de certeza, que esse tipo de música só existia antes no rock brasileiro porque “eles tinham do que reclamar”, se referindo ao período da ditadura militar, como se hoje não houvesse nenhum problema na política, na saúde, na educação, na violência.

Há algum tempo, as bandas brasileiras se preocupavam em compor um repertório completo, onde haveria a música romântica, a balada triste, um som mais “heavy”, um quase blues rock e uma música de protesto. Ao mesmo tempo em que isso ia totalmente contra a criação de uma real identidade da banda, trilhando um caminho único, isso demonstrava a consciência em nunca deixar de dar voz às suas angústias quanto ao poder ou a um paradigma estabelecido pela política ou, até mesmo, pela sociedade.

No fim das contas, o que mais me intriga é o fato de termos, como dito no começo desse texto, uma ferramenta que leva informação e conteúdo de maneira muito mais rápida a todos, seja ela uma música ou uma verdade sobre algum candidato, e ainda assim não agregarmos isso tudo em uma coisa só. Em uma época em que posso compor algo e espalhar minha voz, minhas idéias e minhas palavras pelo mundo, através da Internet, e compartilhar isso com o maior número de pessoas, para tentar mudar o rumo das coisas… Não seria esse mais um motivo para que eu protestasse contra algo que está, ao meu ver, errado?

Começo esse texto com uma pergunta e termino com outra. Talvez seja demais na época da geração “que não tem do que reclamar”. A geração sem motivação e sem vontade. A geração sem gás.

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Comentários

2 Comments

  1. O Rock de protesto está vivo, mas até em meios como a internet hoje está difícil difundi-lo… hoje as web rádios assim como as rádios FM preferem tocar o “rock mela cueca” (é, nos rockeiros brasileiros temos mesmo a mania de intitularmos uns aos outros) ao “rock pesado” ou o “rock de protesto” ou o rock que te agregue de fato algum valor. Não que as bandas de “rock mela cueca” não agreguem valor a ninguém, caso contrário seus empresários e agentes não estariam investindo nelas (hehehe), mas voltando a dizer o que eu queria, sou guitarrista de um banda de “rock and roll” e é assim que nos rotulamos, embora algumas pessoas já tenham dito que somos hard rock, outras que somos pop rock, outras rock 80′s… e nesta banda, a Cardiofonica, zelamos pela qualidade nas composições, nos arranjos, com o material e em sermos realmente autênticos. Já participamos de “n” festivais, levamos algumas premiações, chegamos a ir em programas de rádios e TV’s locais porem vemos bandas e artistas que sem o mínimo esforço, sem a mínima preocupação em gravar uma música em um estúdio legal, com um arranjo e uma letra legal, terem muito mais portas abertas seja na mídia física ou na “virtual”. Hoje a web abre espaço p/ as bandas da web, sou leitor, apreciador, seguidor do rock e falo isso com toda convicção. Se você vira um fenômeno da web ou uma “banda grande do underground”, sai alguma nota sobre você em “n” sites e blog, você peidou fedendo no show, seu uma nota… uma banda independente (do underground ou seja la como cada um chama), legal, que batalha, que lança bons materiais, que corre atrás, mas que não tem nenhum padrinho, tem uma dificuldade imensa seja na web, seja no meio físico de mostrar seu trabalho, seu som, seu protesto… hoje minha banda trabalha arduamente pra conseguir gravar seu primeiro CD, sendo que temos um primeiro single lançado, com um ótimo vídeo clipe (modéstia parte) porém ao não ser a mídia local, parece que outras pessoas fazem questão de lhe fechar as portas, lhe desestimular, e talvez esteja ai o nosso gás, em continuar, em lutar e correr atrás… gostaria de convidar-lhes a conhecer a Cardiofonica, acessem nosso site, ouçam nossas músicas, assistam nosso vídeo clipe, nos ajudem a divulgar nosso trabalho… estamos prestes a lançar nosso vídeo clipe, temos parceiros que nos fortalecem a nível regional, mas ao nacional, é bem difícil… segue o link do nosso primeiro vídeo clipe, nosso web site… e nosso facebook, vejam como as coisas acontecem com uma banda que corre atrás, que rala e que está ai viva na cena (assim como o Nasi). http://www.cardiofonica.com vídeo clipe “Quanto Mais”: http://www.youtube.com/watch?v=piK4DATX068 facebook: http://www.facebook.com/cardiofonica assistam nossos vídeos… http://www.youtube.com/cardiofonica