Frejat: drogas, rock’n'roll e suas consequências positivas

setembro 13th, 20126 Comments »Última Atualização: setembro 24, 2012

Colunista: Rubens Loureiroda banda Reversi

Comecei minha trajetória musical aos 13 anos e, já desde essa época, tive amigos músicos que diziam que fariam um show muito mais legal se tivesse um copo de conhaque ou uma garrafa de vinho no palco. Mesmo que fosse para fazer um show em uma quermesse de igreja. Passados os anos, me deparei com relatos do tipo “o cigarro me dá aquele drive maneiro na voz” ou “quando componho chapado, sinto que estou fazendo algo na mesma vibe do Jim ou do Kurt”, até chegar à fase do “não consigo mais subir no palco se não tiver ‘mandado’ algo”.

A associação que se faz entre rock’n'roll e drogas, ora injusta e sensacionalista, ora feita por puro marketing próprio, é muito perigosa quando feita de forma irresponsável e com adoração cega (incluindo o sexo na famigerada tríade-slogan), podendo soar mais como apologia, onde um não vive sem o outro. Por outro lado, quando há um esclarecimento dos reais motivos de existência dessa associação, o rock adota um papel informativo e de ensino a respeito das principais causas – e consequências – do uso das drogas, através dos “sobreviventes” dessas experiências.

A ideia de escrever este texto veio depois da entrevista do Frejat ao Jornal da Tarde (aqui), publicada na última segunda-feira (10), em que ele fala, entre outros assuntos, sobre a descriminalização das drogas. Bem direto e totalmente favorável à questão, ele diz “Como um remédio de tarja preta é vendido na farmácia, acho que se pode vender cocaína e maconha lá também.”

Apesar da maneira escancarada – e talvez um pouco exagerada, como seu bom e velho parceiro Cazuza -, a frase dita por Frejat abre, novamente, a questão delicada e o debate, nem sempre sóbrio, sobre as causas, os efeitos e as consequências, não só do uso das drogas, mas principalmente da desinformação a respeito delas.

Outros artistas, como Rogério Flausino (Jota Quest) e Pitty, também sempre se posicionaram muito abertamente em relação às substâncias chamadas “recreativas”. E, em todas as vezes, o que mais me chamou a atenção foi, exatamente, os argumentos bem construídos e coerentes de quem, de fato, viveu certas experiências. Na realidade, o grande fator em comum nas declarações desses artistas é transcender (coisa que o rock por si só faz de melhor) a discussão superficial sobre as substâncias em si a um nível de reflexão mais complexo sobre o comportamento humano e suas ânsias, desejos e válvulas de escape.

Ou seja: algumas pessoas descontam suas ansiedades e medos na cocaína, outros na maconha, outros no cigarro, outros no álcool, outros em comida, outros no chocolate, outros no sexo, outros no jogo, outros em religião, outros no dinheiro (mesmo que esse nunca seja usado para consumir os anteriores). O desequilíbrio psicológico ou emocional que faz com que as pessoas busquem essas coisas pode estar presente, muitas vezes, antes do ato em si, e é um problema de saúde a ser cuidado antes de as reais consequências de uma possível dependência começarem a tomar forma.

Em contrapartida, pessoas que não possuem esse desequilíbrio conseguem lidar com todas essas coisas de forma saudável e consciente. E essa consciência é, em definitivo, o que os manteve vivos para contar a história. Consciência essa fruto de um exercício ininterrupto de auto-controle e de percepção do que é, de fato, realidade – e não simplesmente sorte – que muitos outros gigantes do rock não tiveram, e que muitos não-artistas também não têm em relação às outras substâncias e, até mesmo, a coisas naturais da vida. Todo e qualquer excesso é ruim. Água em excesso é ruim. Drogas em excesso são péssimas. Chocolate também. Sexo – acredite – também. É um desequilíbrio que pode causar – ou até ser causado por – dependência e necessidade de ter em alguém/algum lugar/alguma coisa a resposta para todas as ansiedades e desejos da vida.

Frejat fala exatamente disso na entrevista; da conversa aberta com os filhos sobre as drogas e excessos que presenciou ou, ainda, cometeu, além da importância de não ser hipócrita, de não se pintar como “santinho”, de dividir experiências. Mais importante que tudo isso; Frejat é um roqueiro celebrando um momento fantástico na vida de músico – dividida inclusive com seu filho no palco do último Rock in Rio – e consciente de tudo o que ganhou e perdeu na vida, fazendo de todas essas coisas uma lição a ser aprendida. Em certo ponto da mesma entrevista, diz: “(Meus filhos) Sabem que eu tenho uma porção de amigo maluco. Alguns que deram muito certo, outros que deram muito errado. E isso faz parte da vida.”

A celebração da consolidação e longevidade da carreira musical de Frejat – que também comemora os 30 anos do primeiro disco do Barão com uma turnê – não deve nunca ser associada diretamente às drogas ou a qualquer outro estilo de vida. Ao mesmo tempo, Frejat nunca teria chegado a 50 anos de vida e 30 de uma carreira honesta e admirável no rock brasileiro se não tivesse vivido – e aprendido – com todas essas experiências, ora em momentos loucos, geniais e determinantes para a criação de seu caráter como músico e como pessoa, ora em perdas irreparáveis.

O ideal, aqui, é que NÓS também aprendamos com todas as experiências daqueles que admiramos, seja no mundo do rock, seja em nossas vidas pessoais. Sem vestir a máscara da loucura irresponsável que acha que ter um ídolo é idolatrar seus hábitos perigosos. Sem vestir o véu da caretice desinformada que cega e cria preconceitos, também perigosos. De cara limpa.

(Em tempo: perdemos Jim Morrison, Janis Joplin e Layne Staley para as drogas, Kurt Cobain por suicídio, Amy Winehouse, John Bonham e Bon Scott para o álcool – droga LÍCITA, Jimi Hendrix para remédios para dormir, Cazuza e Freddie Mercury por excessos e descuidos em relação ao sexo. E muitas pessoas, diariamente, por causa do cigarro, do açúcar e outras coisas estimulantes e potencializadoras)

Foto de Frejat (06/09/12): por MRossi
Edição: Diego Centurione

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Comentários

6 Comments

  1. Camila disse:

    Gostei do texto, gostei da opinião, mas queria deixar um conselho: o vocabulário da resenha tá muito rebuscado!! Não são (só) doutores que irão ler esse texto! Eu perdi a vontade de ler no 2° parágrafo!!!!

    • Olá Camila! Muito obrigado pelo toque! Minha idéia era a de que, quanto mais simples o vocabulário, mais superficial e repetitiva poderia se tornar o debate, que já dura tanto tempo! Mas concordo, o ideal é chegar em um meio-termo, onde os argumentos sejam mais claros não só no conteúdo, mas na forma também! O importante é reabrir esse debate! Há outras resenhas/textos meus como colaborador aqui pelo site, espero que curta! Um abraço!

  2. Sonia disse:

    Achei coerente o texto e sua opinião, também admiro a postura de Frejat. Sobre vocabulário rebuscado (não vi!), independente de ser no mundo virtual, de ser um texto publicado em um site, a gente deve procurar escrever com mais correção. A questão é a relevância e a coerência do assunto abordado e não necessariamente a linguagem ser rebuscada, formal, informal… se me permite, eu mudaria o título porque esse “e suas consequências positivas” tem um sentido ambíguo. Em relação à descriminalização das drogas, deixando de lado a questão do usuário que de certa forma é de ordem médica, será que descriminalizar não seria uma forma de coibir e quem sabe acabar com toda essa monstruosa crueldade causada pelo tráfico?

    • Olá Sonia! Obrigado pelo comentário! A idéia era deixar ambíguo mesmo porque, da mesma forma, a palavra “consequência”, sozinha, tem um certo caráter negativo, principalmente quando relacionado a algo que as pessoas julgam – ou realmente seja – perigoso. Quanto à descriminalização, concordo plenamente contigo. Os argumentos do filme “Tropa de Elite”, por exemplo, não são furados, e a questão passa longe do papel da substância em si; trata-se exatamente de conscientizar o usuário a brigar por ter o direito de legalizar ao invés de, realmente, financiar o tráfico. Muitos usuários acabam “se fechando” a essa possibilidade, exatamente, por querer algo “mais puro” e “sem impostos”, o que também deveria ser resolvido com mobilizações contra os impostos ao invés da famosa acomodação ante a um problema político-social.

  3. Marcia disse:

    Adorei o texto. Achei que pega num ponto muito interessante, que são os excessos, seja ele de drogas lícitas ou até mesmo de coisas consideradas “normais”.
    Da mesma forma que existem pessoas que usam drogas ocasionalmente e vivem muito bem com isso, também há pessoas que se viciam no primeiro uso.
    Seria legal tirar essa glamour das drogas, como foi dito no começo do texto, de que a pessoa só consegue fazer isso ou aquilo se beber, fumar ou se drogas. É um problema sério quando esse discurso atinge pessoas muito jovens e vulneráveis.
    Continue escrevendo!

    • Perfeito, Márcia! É o hype feito em cima do uso, aliado ao “tudo que é proibido é mais gostoso” que pode causar problemas, pois as pessoas têm backgrounds psicológicos/emocionais e até mesmo organismos diferentes. Não se aplica nunca uma mesma regra para todos os casos. Um abraço e obrigado pelo comentário!


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