Clockwork Angels, do Rush: o novo clássico do rock

junho 29th, 20121 Comment »Última Atualização: junho 29, 2012

Esqueça o MacGyver. Esqueça o rótulo purista de rock progressivo – muitas vezes não empregado corretamente ao Rush. Aliás, esqueça a besteira de que o rock progressivo é ruim/chato. Todas essas “verdades absolutas” e estereótipos só serviriam aqui para uma coisa: privar você, amante de rock, de ouvir um dos melhores álbuns de rock lançados nos últimos anos: Clockwork Angels.

O novo álbum da banda canadense, que acaba de ser lançado no Brasil, já está sendo aclamado de forma unânime pela crítica e pelo público. Tanto que estreou em 2º lugar na Billboard 200 – com mais de 100 mil cópias vendidas na primeira semana – e em 1º lugar no Canadá (o álbum foi lançado no dia 12 de junho, como você viu aqui no Reduto do Rock).

O álbum é, de fato, um álbum conceitual (em tempo: trata-se de um álbum onde todas as músicas se conectam através de um mesmo tema). Mas, antes de ser contaminado, mais uma vez, pelo sentimento de “progressivofobia”, lembre-se de álbuns clássicos como Tommy, do The Who (influência para o Clockwork Angels, segundo Geddy Lee, vocalista/baixista/tecladista do grupo), e The Wall, do Pink Floyd, que são cruciais para a história do rock. Clockwork traz à tona temas como alquimia e crenças em verdades absolutas e precisas, e o quão ruim pode ser não saber lidar com ambas (que tal a dica, hã?!). Tudo isso marcado/controlado pelo tempo e pela entidade chamada na história de “Relojoeiro”, além dos “Anjos Mecânicos”, que dão nome a essa obra inspirada visivelmente nos escritores H.G. Wells, Júlio Verne e em “Cândido”, de Voltaire.

Musicalmente, o trio consegue sabiamente se reinventar, trazendo a sensação de que todas as diferentes fases dos quase 40 anos de carreira da banda estão no mesmo lugar, e se complementando. Criam riffs pesados, com timbres completamente reconhecíveis pelos fãs e ao mesmo tempo cheios de um frescor necessário para o rock atual, além de melodias que vão do complexo muito bem estruturado ao suave e legitimamente tocante.

Para ilustrar melhor, faremos uma análise mais aproximada de cada faixa do álbum:

1 – Caravan: “A caravana me leva adiante. Em meu caminho, enfim”. O primeiro single do álbum – que já havia sido lançado em 2010 e tocado na turnê Time Machine – abre a jornada e já nos remete a uma pegada Moving Pictures. Riff forte em uníssono, e vocais seguros e precisos, dando voz ao protagonista da história, que diz: “Em um mundo onde me sinto tão pequeno, não consigo parar de pensar grande.”

2 – BU2B (Brought Up To Believe): Música também lançada anteriormente e executada na última turnê, vem com uma cadência mais rápida, ainda contextualizando a personagem na história, contando como ele foi criado/educado para acreditar que “tudo é para o melhor” e que nós, humanos, não devemos entender e, sim, aceitar que o mundo tem um plano exato para tudo e para todos. Impossível não lembrar, nessa faixa, de toda a fase anos 80 de Neil Peart enquanto baterista – aclamado como o melhor do mundo em atividade desde então e até hoje – com viradas desconcertantes e que não deixam “a moeda cair” em nenhum momento.

3 – Clockwork Angels: A faixa-título é o novo épico do Rush, algo que eles não faziam talvez desde o próprio Moving Pictures (tido como o melhor álbum da banda). Durante seus mais de 7 minutos, somos levados – o personagem e nós, ouvintes – a um clima que mistura vocais quase religiosos a passagens de ficção científica (2112 nos vem à cabeça de maneira fácil). Entre suas diversas partes, estão um blues bem no meio da música e um dos melhores trabalhos de guitarra da carreira de Alex Lifeson, além de um solo icônico.

4 – The Anarchist: Talvez uma das músicas de mais simples audição do álbum. Em sua temática, fala sobre um homem que não aceita as coisas como são e sente dentro de si crescer uma “névoa escarlate de raiva” – provavelmente o que inspirou o fundo da arte da capa do álbum. O que chama mais a atenção aqui é a ligação improvável entre 3 fases do grupo em uma mesma música: a simplicidade do Fly By Night, os riffs mais abertos de Permanent Waves e a modernidade de timbres do Vapor Trails.

5 – Carnies: Primeira reação: QUE RIFF É ESSE??? Mesma sensação, depois disso, de quando ouvimos a faixa “Clockwork Angels”: como é bom ouvir algo novo e original em plena década 10 do século 21. A música fica mais alegre ao chegar na ponte e no refrão (positivamente grudento). Nunca à toa: nosso personagem faz parte de um parque de diversões itinerante. A história começa a se desenvolver ainda mais nessa faixa, que é uma evolução perfeita do Snakes And Arrows, o álbum anterior.

6 – Halo Effect: Uma balada pesada. Segundo Lifeson, a canção fala sobre decisões emocionais que fazemos e não funcionam, geralmente em relacionamentos. A banda acerta em cheio no contraste. Fácil assimilar o estilo Test For Echo nela.

7 – Seven Cities Of Gold: Ah, o baixo de Geddy Lee. A música começa e o ouvinte vai parar nos anos 70. Uma das mais pesadas do álbum, abrindo a segunda metade da jornada, onde o viajante começa a sentir que, talvez, tenha ido longe demais. “Aquele brilho à distância poderia ser a porta do céu” chega a fazer referência a “Stairway To Heaven”, do Led Zeppelin. Música poderosa em tema e música.

8 – The Wreckers: Começa com um simples e forte acorde de ré, numa pegada a la The Who, chutando a boca de quem diz que o Rush se apóia apenas em sua complexidade musical para ser conhecido. Incrivelmente, Geddy compôs as guitarras dessa música e Lifeson, o baixo. De repente, a grande volta dos teclados! Acompanhados de uma orquestra!! E a música fica gigante!!! A fase entre Grace Under Pressure e Hold Your Fire fica latente. Um dos refrães mais melodicamente e liricamente emocionantes não só do álbum, mas também da discografia da banda.

9 – Headlong Flight: O novo single, lançado em abril desse ano = POR-RA-DA. Sete minutos e vinte segundos de porrada. Os acordes rápidos e rasgados dos versos lembram “Bastille Day” do álbum Caress Of Steel, enquanto toda a passagem do meio da música nos mergulha de volta a “Working Man”, da fase mais classic rock da banda, em seu primeiro álbum – com direito a solo com wah-wah e uma jam que mostra toda a força do trio. Uma das letras mais geniais escritas por Peart: “Alguns dias foram escuros. Algumas noites brilharam. Eu gostaria de viver tudo aquilo novamente”, de alguém que não se arrepende nem das alegrias e nem dos erros cometidos por suas decisões próprias. Mais um clássico certo.

10 – BU2B2: Como em todo bom álbum conceitual, temos aqui uma versão “reprise” da segunda música do álbum, bem mais curta, desta vez apenas com a voz de Geddy e uma orquestra em tom grave emoldurando tudo. No entanto, ao contrário do segundo tema, o viajante percebe que toda aquela crença no “tudo é para o melhor” foi o pior de tudo.

11 – Wish Them Well: Lifeson pluga sua Gibson num Marshall e, simplesmente, toca. “Tudo o que você pode fazer é desejar-lhes sorte”, canta Geddy. A música flui muito fácil, como na fase entre o álbum Presto e o Counterparts. Daquelas de cantarolar junto logo na primeira audição.

12 – The Garden: O Grand Finale! O tipo da música que poderia estar no Signals (as cordas nos transportam para a emocionante “Losing It”, desse álbum). Que poderia estar no lado B do Hemispheres ou do 2112. Mas não. Não poderia, pois é a melhor e mais perfeita conclusão para essa belíssima história. Com os versos: “A medida de uma vida é a medida do amor e respeito/Tão difícil de obter, tão facilmente queimada/Na plenitude dos tempos/Um jardim para nutrir e proteger”, com os violões, a orquestra, a voz suave de doce de Geddy Lee e o solo mais emocionante de Lifeson em toda a sua carreira, a jornada se encerra de maneira tocante e direta.

Repetimos: esqueçam o MacGyver. O Rush não precisou de idéias mirabolantes nem de artefatos absurdos ou complexos para escapar do lugar comum dos últimos anos no rock. Conseguiu criar, com simplicidade, coragem, e um pouco de nostalgia, algo novo, diferente, empolgante e emocionante. Clockwork Angels já nasceu clássico. Um clássico que pode ser apreciado em tempo real. Ou, mais uma vez, ignorado pelas verdades absolutas e pelos senhores do tempo na arte e na música.

Enquanto isso, como diria Voltaire, “devemos cuidar do nosso jardim”.

Por Rubens Loureiroda banda Reversi (Colaborador Reduto do Rock)
Música preferida do álbum: “The Wreckers”

Fontes: Rush Fã Clube BR, Music Radar e Wikipedia

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