Roger Waters em São Paulo: The Wall é uma crítica a nós mesmos

abril 3rd, 20125 Comments »Última Atualização: abril 10, 2012

Ingressar pelos corredores do Morumbi (São Paulo), no último domingo (1º), entrar na área principal e observar a estrutura do palco de The Wall, é o suficiente para que os quase 70 mil espectadores sentissem que estavam prestes a acompanhar um dos maiores shows de suas vidas.  O muro de mais de 130 metros de largura é algo que impressiona, algo tão absurdo que nos faz sentir que estamos sonhando.

Roger Waters aparece no palco em meio a fogos de artifício e muita emoção, que se prolonga por mais de duas horas de espetáculo. Não se pode dizer que The Wall é apenas um show, está muito além disso. Waters nos apresenta uma noite conceitual, que nos transporta para tantas guerras e perdas, que faz com que olhemos para nós mesmos, nosso individualismo e egoísmo diário. Roger critica a paranoia, dedicando “Run Like Hell” aos paranoicos, critica o governo com o aclamado No Fucking Way (Nem Fudendo, em português), que responde a pergunta Mother, should I trust the government? (Mãe, devo confiar no governo?) na canção “Mother”; critica o terrorismo ao homenagear Jean Charles de Menezes e nos faz perceber que The Wall não é apenas um disco sobre a vida de Waters, mas também sobre a vida de todos nós.

A guerra diária que travamos contra a violência, a brutalidade do capitalismo selvagem e de seus produtos, o radicalismo mortal das religiões e do comunismo e, claro, o muro de Berlim. O público saiu do Morumbi mais pensativo e mais poderoso; sentindo que, de fato, em mais de 30 anos, nada mudou. O muro foi derrubado, a ditadura foi derrotada, porém a corrupção, o poder obsessivo e o terrorismo ainda marcam presença. Esta é a mensagem de um show que também é um impecável entretenimento.

Em uma estrutura jamais vista, Roger Waters faz o mais crítico espectador se curvar, ficar boquiaberto e dizer que nunca viu nada igual. The Wall é uma experiência única, algo para se contar aos netos e para os netos contarem a seus filhos. É um espetáculo que supera qualquer expectativa, que está acima de todo e qualquer evento. Os telões transmitem as imagens em uma qualidade que nos faz pensar que estamos em uma sala Imax de cinema, acompanhando outro show gravado da turnê; mas não, aquilo tudo está acontecendo ao vivo.

O coral do Instituto Baccarelli (Heliópolis) em “Another Brick In The Wall” leva os fãs ao delírio, principalmente por observarem de longe o sorriso de crianças que sofrem tanto no dia-a-dia. A já esperada homenagem a Jean Charles divide o sentimento da família do brasileiro com todos nós, causando uma mistura de revolta com tristeza.

No clássico “Comfortably Numb”, o mais fanático imagina David Gilmour aparecendo no topo do muro como no show de Londres, na O2 Arena, pela mesma turnê; além de um solo perfeitamente executado, que faz milhares de fãs tocarem sua air guitar na mesma sincronia.

“Vera” e ”Bring The Boys Back Home” nos fazem chorar; imagens de soldados voltando da guerra e encontrando seus filhos fazem com que 70 mil olhares sejam cobertos por lágrimas. A mensagem é clara: “Acabem com a guerra, deixem os soldados verem seus filhos crescer”.

“Tear Down The Wall!” (Derrubem o Muro, em português) não foi apenas um coro, mas sim um apelo. Com a destruição do muro, “Outside The Wall” entrega um voto de confiança no ser humano, um voto de confiança a nós mesmos: é possível vencer a violência, a ignorância, o totalitarismo e a crueldade. A felicidade depende de nós, é exatamente o que a grande maioria sente ao deixar o Estádio.

Por fim, o eterno baixista do Pink Floyd nos agradece; somos nós quem temos que agradecer. The Wall é surreal, beira os limites da realidade, nos deixa sem palavras para elogiar, ou até mesmo para explicar. The Wall é como Roger Waters, especial.

Fotos

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Vídeos

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Por: João Victor Vieira (Colaborador Reduto do Rock)
Edição: Diego Centurione e Malú Botelho
Foto Roger Waters (01/04/12 – São Paulo): por Mrossi (T4F)

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Comentários

5 Comments

  1. Bruno disse:

    Show mágico, som, visual e estrutura PERFEITOS!!!!!!!

    Melhor show que já vi na vida e muito dificilmente verei algo melhor que isso!

  2. Roger disse:

    Depois deste documentario sobre a nossa situação eu te pergunto e agora? Não podemos levar esse tapa na cara e voltarmos para nosso dia a dia. Vamos lugar contra os que nos oprimem!

  3. marcia assis disse:

    simplesmente não dá pra definir este mega show!

  4. Rodrigo disse:

    Perfeito texto! Realmente o show foi tudo isso mesmo!

  5. [...] característica é viva e pulsante em Roger Waters, visto o show de The Wall que o baixista trouxe ao Brasil em 2012. Se você parar para contar nos dedos quantos shows de rock chegam perto ou ultrapassam a qualidade [...]


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