Electric Lady Studios, o legado de Jimi Hendrix

setembro 17th, 20101 Comment »Última Atualização: setembro 20, 2010

Jimi Hendrix morreu em 18 de setembro de 1970, menos de um mês após a festa de inauguração do estúdio criado por ele, realizada em 26 de agosto.Há apenas uma pequena placa identificando as instalações do Electric Lady Studios, no número 52 da West Eight Street. Fundado a partir de um velho e degradado clube noturno chamado Generation Club, o estúdio distinguia do modelo tradicional da época (caixotes impessoais administrados por engenheiros de som conservadores). A criação de Hendrix era um reduto psicodélico, com paredes curvas, iluminação multicolorida e murais de ficção científica erótica para estimular o fluxo da criatividade.

Hendrix se foi, mas deixou como legado armários cheios de fitas com material registrado durante as sessões de gravação. O estúdio resistiu ao tempo, mantendo-se entre os melhores do mundo. No mês passado, durante a celebração do 40º aniversário do local, um grupo de engenheiros de som e produtores relembrou que a maioria dos demais grandes estúdios de Nova York (Hit Factory, Record Plant e Sony Music Studios, por exemplo) fechou as portas nos últimos anos, vítimas das dificuldades financeiras da indústria fonográfica ou das pressões imobiliárias.

Eddie Kramer, um sul-africano com cabelo penteado para trás, cavanhaque bem definido e comportamento meticuloso, é o engenheiro de som de quem Hendrix mais gostava e força ativa na criação do estúdio. Ele oferece uma explicação simples para a longevidade: “Numa só palavra: clima”, disse sentado numa pequena antecâmara ao lado da cabine de controle de uma das três salas de gravação. “Queríamos proporcionar um ambiente no qual Jimi pudesse se sentir extremamente feliz, e tivesse a sensação de ser capaz de criar qualquer coisa. Era um lugar maravilhoso, como um útero”, acrescentou. Kramer  já trabalhou com gigantes do rock como Led Zeppelin, Kiss e Rolling Stones.

Entre os cerca de 80 profissionais da música presentes no encontro comemorativo, estavam: Tony Platt que em 1980 mixou Back in Black do AC/DC; o arquiteto e perito em acústica John Storyk que projetou o estúdio; a dupla Robert Margouleff e Malcolm Cecil, magos do sintetizador recrutados por Stevie Wonder na década de 1970; Lenny Kaye, guitarrista do Patti Smith Group e Janie Hendrix, meia-irmã de Jimi.

Com o sentimentalismo e a precisão dignos de engenheiros de som de longas carreiras, eles contaram histórias de guerra no front do estúdio (o amplificador de Jimi ficava ali, junto à parede; o baterista de Stevie gostava de se instalar daquele lado); extraíram suspiros da plateia com uma apresentação de fotos retratando antigos consoles de mixagem; e tentaram determinar qual era o aspecto do Electric Lady que conferia ao estúdio sua atmosfera única. O espírito de seu fundador foi citado mais de uma vez, bem como a mistura entre tecnologia e clima convidativo.

“Todos os estúdios que vemos hoje partem do princípio de oferecer um ambiente amigável para a produção da arte”, disse Margouleff, contendo as lágrimas. “Esta foi uma das principais invenções do Electric Lady.” Para muitos artistas, o estúdio de Hendrix se tornou um segundo lar. A porta para o banheiro do andar de cima tem um pequeno buraco, grande o bastante para acomodar um cabo nos momentos em que Keith Richards quisesse editar suas sequências de guitarra na privacidade mais reservada possível. Para Jimmy Page, o toque pessoal de Hendrix e Kramer fez toda a diferença quando o Led Zeppelin trabalhou na mixagem de Houses of the Holy naquele estúdio, em 1972.

“Eddie Kramer era um engenheiro de som excelente”, afirmou Page em entrevista por telefone. “Para trabalhar num estúdio que levaria o nome de Hendrix, ele garantiu que o lugar fosse atraente e dotado de uma boa acústica, para que os músicos quisessem tocar naquele cômodo.” Mas, no universo dos estúdios de gravação, no qual tempo é dinheiro e a inspiração precisa fluir ao longo de repetidas tomadas, até fatores intangíveis como o clima têm uma função específica, e os princípios por trás do projeto do Electric Lady se tornaram populares atualmente.

Storyk explicou que, além do clima e da iluminação, Hendrix fez pedidos que representaram mudanças visionárias para a arquitetura dos estúdios, como salas de controle grandes o bastante para acomodar simultaneamente artistas e engenheiros de som, possibilitando que trabalhassem juntos com mais conforto. Tais planos, somados a complicações como o lençol freático muito próximo do subsolo do edifício, significaram um processo de construção prolongado e caro.

O alvará original de construção do estúdio emitido pela prefeitura de Nova York estima o custo da obra em US$ 125 mil, mas Storyk lembra que o valor final chegou a US$ 1 milhão. Depois de projetar o Electric Lady, aos 22 anos, Storyk foi o responsável pela arquitetura de muitos estúdios e casas de espetáculo espalhados pelo mundo.

“Era a primeira vez que um artista construía um estúdio. Isso estava ocorrendo em alguns casos isolados pelo mundo, mas nenhum daqueles projetos era tão famoso quanto o de Jimi”, revelou Storyk. As inovações do Electric Lady com vista a um melhor aproveitamento por parte do artista – acompanhadas pela mística de Hendrix – ajudaram o estúdio a sobreviver a uma era em que as grandes instalações multifuncionais de gravação cedem espaço para salas menores e de foco mais definido.

Ecoando o seu modelo, muitos estúdios novos, como o Roc the Mic, de Jay-Z, em Manhattan (projetado por Storyk), são criados para atender às necessidades específicas de um músico. Entre os artistas que gravaram recentemente no Electric Lady estão Eric Clapton, Coldplay, Rihanna, The Strokes e Sheryl Crow.

Assista abaixo a entrevista do engenheiro de som Eddie Kramer ao Guitar Center, em inglês.

Fonte: The New York Times, tradução de Augusto Calil. Edição de Andressa Warken

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Comentários

1 Comment

  1. Absinto Muito disse:

    Vem em ótimo momento quando já se passaram 40 anos que perdemos a presença física do Jimi. Gostaríamos que conhecesse o nosso blog http://absintomuitorock.blogspot.com/ e a nossa banda http://www.myspace.com/absintomuito
    “O Rock Prevalece!”


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