Nei Lisboa fala sobre identidade musical e novas composições

janeiro 27th, 20100 Comments »Última Atualização: janeiro 27, 2010

Depois de mais de três anos sem compôr, Nei Lisboa afirmou que há planos de lançar algo em 2010, mesmo que seja pequeno e só na internet. “Jogar na rede um trabalho novo, fazer essa experiência, pela primeira vez sem o disco, sem o suporte físico. Tô curioso de ver que retorno isso teria”. Sobre as novas composições, ele revela que utilizou antigas canções que estavam pela metade. Cena Beatnik (2001), Relógios de Sol (2003) e Translucidação (2006) foram três discos intensamente autorais, e depois desse período de descanso, Nei está ansioso pelo lançamento.

Em recente entrevista à Zero Hora, o cantor e compositor, que completou seus 51 anos no dia 18 de janeiro, falou sobre seus planos.Entre as perguntas levantadas, destaquei a opinião de Nei a respeito de sua identidade musical, que muitos fãs e críticos já tentaram definir. No início dos anos 1980, havia uma distinção entre os artistas do rock e da MPG (Música Popular Gaúcha).Entretanto, Nei sempre ficou entre um e outro.

Chegaste a te vincular a algum estilo ou movimento musical? Sempre pareceste um artista que não é muito fácil de se classificar.

Nei – Ainda bem, né? Não sou, não. Minha personalidade artística é meio difícil de se trabalhar comercialmente. Mas eu vejo isso como um bom sinal. Eu namorei bastante com o rock gaúcho, uma aproximação que às vezes gerou desconforto com os meus pares da MPG, que viam isso como eu estar me vendendo “para o outro lado”.

Era nesses termos, um lado e outro?

Nei – Pois é, para mim não. Mas há quem veja a coisa assim. Hoje eu me sinto bem mais pendente para uma coisa MPB, canção brasileira. Mas não me sinto obrigado a recusar nenhuma outra opção que se apresente. Para mim, é música. Cultivei para mim, junto ao público, um espaço de possibilidades muito amplas, fazendo trabalhos bem diversos. Uma vez fui para o Uruguai e fiz um trabalho com o candombe (o álbum Amém, de 1993), depois fiz um disco acústico só de pop internacional (o disco Hi-Fi, de 1998). Quem sobreviveu a isso, ainda gosta do que eu faço e entende o meu trabalho me concede a liberdade de que eu tenha esse espaço para trabalhar. Nessa matéria, me sinto à vontade para fazer qualquer negócio: um tango, uma música indiana, uma MPB. Por outro lado, deixa eu dizer que me sinto um pouquinho órfão. Isso não veio como uma intenção, mas como uma busca de alguma coisa que me representasse. É um sintoma de que não tem uma formação musical enraizada que seja forte o suficiente para forjar uma identidade em torno dela. É um mal do qual todos padecemos um pouco aqui no Rio Grande do Sul. A música da minha terra, que eu ouvia de criança, o Teixeirinha, por exemplo, nunca me seduziu a ponto de eu profissionalmente produzir alguma coisa com ela. Tudo em torno dela me parece muito ruim, estética, ideológica e musicalmente. Isso inclui sobretudo o que o tradicionalismo tem feito com a música do Rio Grande do Sul nas últimas décadas. Eu comecei a me lançar na virada dos anos 1970 para os 1980, quando foi também o boom dos festivais, do tradicionalismo. E foi também, no começo dos 1980, que o rock brasileiro começou a mandar na cena. Enfim, que identidade musical a gente tem aqui em Porto Alegre? Há uma dificuldade nessa matéria. A tropicalidade da música brasileira sempre nos toca um pouco nos meses de verão e já nos abandona ali na primeira geada de abril ou maio, a gente passa a demandar outro tipo de coisa. A música gaúcha se torna intragável para qualquer pessoa mais esclarecida. Não é só o fato de não me representar. Eles foram absurdamente reacionários, a música começou a ser tutelada em termos do que vestir e não vestir em cima do palco, um absurdo. Qualquer adolescente urbano mediamente esclarecido, hoje em dia, se coloca a quilômetros de distância disso.

Fonte: ZeroHora.com

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