Pra ser sincero: evolução e análise poética dos Engenheiros

janeiro 24th, 20100 Comments »Última Atualização: janeiro 24, 2010

Humberto Gessinger resolveu contar sua própria história em livro. O resultado é o volume Pra Ser Sincero – 123 Variações Sobre um Mesmo Tema, lançado em 14 de janeiro, que reúne memórias, letras selecionadas e comentários. Para ler um trecho do livro, clique aqui

O livro se divide em três partes. Primeiramente, um texto autobiográfico relembrando infância, adolescência e trajetória musical. A segunda parte justifica o aleatório subtítulo 123 Variações Sobre um Mesmo Tema: são letras, algumas comentadas por Gessinger, de canções do repertório dos Engenheiros do Hawaii – banda que estreou há exatos 25 anos, em 11 de janeiro de 1985, lançou 18 discos e agora está de recesso até segunda ordem – e também do Pouca Vogal, projeto atual de Gessinger, em parceria com Duca Leindecker. No final, um texto do professor de literatura Luís Augusto Fischer – de quem Gessinger chegou a ser aluno no Colégio Anchieta – analisa a importância poética da obra dos EngHaw.

O projeto gráfico destaca fotos curiosas e pequenas ilustrações de Andrews & Bola (algumas delas espalhadas na página ao lado) sobre diferentes fases, cortes de cabelo e instrumentos musicais usados por Gessinger nesses 25 anos. É esse também o espírito do texto que abre o volume: o autor não tentou fazer uma biografia de suas bandas, mas deu suas impressões sobre episódios, pessoas e canções que foram decisivas nessa estrada. Nada disso é tudo, mas tudo isso é fundamental.

Autor: Humberto Gessinger
Editora: Belas-Letras
Páginas: 304
Quanto: R$ 32,00 na Livraria Saraiva

Abaixo confira entrevista de Humberto Gessinger para o Jornal Zero Hora.

No livro, tu falas do início da tua relação com a música. E como começou tua relação com a leitura, a escrita e a literatura?
Humberto Gessinger – O primeiro livro que comprei com a minha grana foi O Lobo da Estepe, do Hermann Hesse. Porque eu sabia que tinha uma banda chamada Steppenwolf e fiquei curioso. Então, a porta de entrada pro lance da literatura foi musical. E um Hesse levou a outro Hesse, e o Hesse levou ao (Albert) Camus (autor de O Homem Revoltado, livro que inspirou a canção A Revolta dos Dândis). E eu jogava tênis na Sogipa e ali tinha uma biblioteca bem precária, de quem dava os livros porque não queria mais em casa. Ali comecei a ler, mas tinha que escolher – tinha um Hesse, mas não o melhor Hesse. Se tu achasses algum autor que interessasse, provavelmente não haveria outro livro dele ali.

Como comparar a cultura de Porto Alegre de 1985 à de hoje?
Gessinger – Pega a foto de qualquer time de futebol de 1985 e vê o tamanho do goleiro, e aí vê o tamanho do goleiro hoje. Tu vais ter uma noção do quanto o mundo mudou. Acho muito difícil comparar, é outro mundo. Hoje o pessoal é mais pragmático, mais especializado. Se tu queres ter um papo linear e politizado, tens que ter um tipo de som. Para a classe média branca, é só um tipo de som. Tudo muito segmentado. Não pode ter o que eu achava saudável nos anos 1980, tipo o reggae que o Police fazia, um quase-reggae. Ou o quase-funk do Clash fazia. Dessa leviandade em se tratar das coisas do pop eu sinto falta. Isso não é opção do artista, o ambiente é assim. Muita gente reclama da qualidade das letras, mas é o ambiente que valoriza outro tipo de coisa. Sinto saudade a inconsequência ao brincar com os ícones pop. Mas vou concordar que os moleques de hoje são muito mais profissionais, já têm uma visão empresarial. É ruim, é bom, mas é ruim, mas é bom, mas é ruim, mas é bom, entende? É outro tempo. Naquele tempo, baixinho podia ser goleiro, hoje não pode. Naquele tempo eu podia ser líder de uma banda de rock’n’roll, hoje acho que não poderia (risos).

Como definir o rock gaúcho?
Gessinger – Acho que tem um estilo bem definido, desde sempre, que é referente aos anos 1960 e 70, que eu definiria como rock gaúcho. Bandas que remetem especialmente a um estilo – como Replicantes ao punk, depois teve a Tequila Baby, ou a onda cinquentista de TNT e Cascavelletes, e esse menino que era dos Cascavelletes e tem esse lance dos Beatles, o Júpiter Maçã –, acho que isso é uma característica do rock gaúcho. Talvez seja uma característica do rock gaúcho ser referente, adotar estilos. Acho que é um rótulo bacana e conveniente, lá fora soa bem, não se deve ter vergonha disso. Não me sinto parte dessa cena, mas acho que se deve usar e reforçar isso.

Essa visão de fora do Rio Grande do Sul é mítica. Muitas vezes, na imprensa, o artista tem mais respaldo depois de ser reconhecido no Rio e em São Paulo.
Gessinger – Mas é que nós, gaúchos, somos muito oficialistas. Talvez por ser um Estado que às vezes era Brasil, às vezes não. A gente gosta de cantar hino, a gente gosta de bandeira, de exército. A gente é um estado oficialista, e até um pouco careta nesse sentido. Quando o centro do país põe o selo, pra nós é super importante.

Escrever o livro foi muito diferente de escrever canções?
Gessinger – Música eu escrevo e, se eu achar que alguém não vai entender, azar. Mas livro, se alguém não entender, é uma merda (risos). Escrever é fácil, mas tu tens que mudar a chavezinha de seleção e virar leitor e ler racionalmente. Tu lês o que tu escreveste, mas tem o que tu pensaste em escrever e o que tu cortaste, então é difícil ler racionalmente. E na música não sinto isso – quando faço um acorde, já sei o que ele quer dizer, quem usou aquele acorde, quem não usou. No livro, tive essa dificuldade. E só escrevia quando estava com pilha pra escrever. Condensei muita informação, como faço nas canções. Depois achei que podia ter escrito mais mineiramente.

Fazem falta mais detalhes de alguns episódios, como as rupturas na banda.
Gessinger – Eu pensei nisso também. É que o caráter comezinho desses momentos – quem resolveu sair, quem não sei o quê – às vezes é tão insignificante… É meio O Estrangeiro, do Albert Camus, quando cai uma gota de suor no olho do cara… E comparado com a música que se estava fazendo… Claro que na época é meio traumático, mas eu tentei dar um flow baseado naquilo que a gente produziu, que é o mais significativo. Claro que pode ser escrita uma história mais factual, mas certamente não seria eu a pessoa indicada. E eu também nunca quis falar pelos outros, é complicado nesse sentido também.

A biografia do Pink Floyd escrita pelo (baterista) Nick Mason (Inside Out, inédita no Brasil) foi uma influência? Também é um livro bem pessoal.
Gessinger – Também, mas é mais aleatório. As Crônicas, do (Bob) Dylan, são mais fragmentadas. A do (Eric) Clapton eu acho legal, mas ele tentou ser mais racional, e passou por muita coisa. Uma que me pareceu muito bem escrita é Fora do Tom, do Sting. E a biografia do Slash (ex-guitarrista do Guns N’ Roses) foi um susto: nas duas primeiras páginas, ele já tinha tomado de tudo, a mãe dele era amante do David Bowie, o pai dele fazia capas pra todo mundo. Em duas páginas, o Slash viveu mais do que eu viveria em cinco vidas! (risos). Mas, lendo o livro, vi que ele patinava em questões muito pessoais. Eu vi que podia contar a minha história.

E tem a biografia do Anthony Kiedis (vocalista do Red Hot Chili Peppers)…
Gessinger – Ah, o Anthony Kiedis, é insuportável aquele livro. Tenho brigas homéricas com o último pessoal que tocava comigo por duas bandas: Red Hot Chili Peppers e R.E.M. Tem pessoas que atingem uma certa idade e escolhem uma banda confortável para gostar. Já não pode ser o U2, então tem o R.E.M. O R.E.M. parece, para mim, um estacionamento de shopping center vazio. O cara é inteligente, o guitarrista é bom, mas o que é R.E.M.? Eles são a resposta americana ao lance alternativo inglês. Mas o que o americano tem a oferecer é o Elvis Presley gordo, de macacão. E isso é lindo: Elvis, Willie Nelson, por que não? Os caras acham uma droga, aí vem um (Quentin) Tarantino da vida e dá um verniz cult a isso, e todo mundo adota. O R.E.M., em tese, não devia ser um bandããão, de estádio. Acho que, em geral, o rock, quando é hegemônico, é a coisa mais chata do mundo. É como aquela menina que, quando põe uma roupa legal e se produz, fica um bagulho. Rock, pra mim, é isso: quando está bem produzido, é horrível. Rock tem que ser precário.

Quais os próximos projetos – musicais ou literários?
Gessinger – No musical, eu sou o cara do Pouca Vogal. Engenheiros do Hawaii é uma banda hibernando, que de vez em quando pode pintar em algumas ocasiões. Eu penso em fazer alguma coisa quando o Longe Demais (das Capitais) fizer 25 anos (em 2011), ou quando o Revolta (dos Dândis) fizer 25 anos (em 2012). Acho que o Pouca Vogal é uma plataforma de expressão mais adequada para a maneira como eu sou hoje. Acho que o que tinha a acrescentar no ambiente de baixo, guitarra e bateria já acrescentei. Quanto aos livros, acho que o cara é escritor quando escreve ficção, esse é o salto. Eu não me chamo de escritor. Não sei se tenho outra história a contar além dessa que eu contei. Talvez tenha que esperar mais 25 anos para escrever o 456 Variações Sobre um Mesmo Tema (risos).

Fonte: ZeroHora.com

« Oasis concorre a prêmio na Inglaterra
U2 começa a trabalhar em álbum "especial" »

Categorias

Lançamentos Livros

Tags

Comentários

Nenhum comentário


Festivais no Brasil

    Nenhum data presente

Apoio